Lisbeth Suing e o legado que conecta passado e futuro do cooperativismo

Escrito em 05/05/2026
Mundo Coop

A história do cooperativismo brasileiro ganha novos contornos quando personagens antes silenciados passam a ocupar o centro da narrativa. É o caso de Lisbeth Suing, reconhecida como a primeira mulher associada da Sicredi Caminho das Águas. Sua trajetória, agora resgatada, revela não apenas um marco simbólico, mas um capítulo essencial para compreender a construção coletiva que sustenta o movimento cooperativista até hoje.

Esse resgate ganha ainda mais relevância no contexto da inauguração do Memorial Anneken, em outubro de 2025, em Rolante (RS), espaço que conecta passado, presente e futuro da cooperativa.

Mulheres, Memória e Protagonismo

ALVARO LINK
Álvaro Link, presidente do Sicredi Caminho das Águas

Segundo Álvaro Link, presidente da Cooperativa, a redescoberta da história de Lisbeth Suing revela que, mesmo nos primórdios do cooperativismo, frequentemente narrados a partir de lideranças masculinas, as mulheres já estavam presentes como parte real da base social. “O fato de Lisbeth ter sido a primeira mulher associada (matrícula 178, em 24/11/1934, aos 28 anos) mostra que a participação feminina não começou ‘recentemente’; ela apenas foi pouco registrada, pouco celebrada e, muitas vezes, invisibilizada nos relatos institucionais.”

Essa constatação vai além do reconhecimento histórico. Ela aponta para uma barreira que ainda existe. “Isso expõe uma lacuna típica da memória institucional: documentos existem, mas a narrativa não os incorpora. E evidencia que ainda há um desafio atual: transformar inclusão em prática contínua, não só em reconhecimento histórico, garantindo voz, liderança, representação e valorização das contribuições femininas em todos os níveis da cooperativa do movimento cooperativo”, afirma.

Ao trazer à tona a história de Lisbeth, a cooperativa também promove uma reconexão como fato mais importante de sua origem. “Personagens como Lisbeth humanizam a narrativa porque tiram a história do cooperativismo do plano abstrato e colocam no centro vidas reais”, destaca Álvaro Link. “Lisbeth não é apenas um nome em arquivo: foi uma imigrante que veio jovem ao Brasil, viveu desafios de adaptação, trabalhou como doméstica em Porto Alegre, falava apenas alemão e era lembrada como alguém prestativa e disposta a ajudar.”

O legado do Padre Anneken e a força da comunidade

Adentrando ainda mais a história da cooperativa, é possível perceber que sua origem está profundamente ligada também à atuação de Padre Jorge Anneken, figura central na organização social da região. “O padre Jorge Anneken, como liderança catalisadora da formação da Sicredi Caminho das Águas, parece ter deixado um legado que vai além do ato fundador: uma ideia de cooperativa como instrumento de comunidade”, afirma Álvaro Link.

Do ponto de vista histórico, Rodrigo Trespach contextualiza a atuação do padre dentro de um cenário mais amplo. “Anneken chega ao Brasil num momento em que há um grande movimento migratório de europeus para o país. Esses imigrantes enfrentam o desafio de escapar da pobreza e recomeçar a vida em um novo ambiente, em que não entendem a língua local e não contam com assistência religiosa”, explica. “Ele tem um papel importante na questão social, religiosa, econômica e educacional do meio em que viveu e atuou.”

O elo entre gerações

Mais do que preservar fatos, o Memorial propõe uma experiência que conecta diferentes dimensões da história regional. Para Rodrigo Trespach, o objetivo é claro. “Primeiro, não estamos construindo uma narrativa. Estamos resgatando a história de vida de pessoas que deixaram um legado. E resgatar é permitir que essas histórias, que antes estavam guardadas nas memórias dos mais idosos ou nos baús de algumas pessoas, possam vir ao grande público.”

A iniciativa também fortalece o sentimento de pertencimento. “Esse envolvimento com o passado é fundamental para uma sociedade. Entender e compreender a história de sua cidade, de sua região ou país, é um exercício de cidadania”, afirma o historiador. “O senso de pertencimento, de participar, de se sentir parte de uma comunidade, está na própria essência do cooperativismo.”

Um legado que aponta para o futuro

A trajetória de Lisbeth Suing e dos primeiros associados deixa um recado para as novas gerações. “Cooperativismo não é só um modelo econômico: é uma escolha ética e comunitária”, afirma Álvaro Link.

Ele destaca ainda a importância da inclusão como base para o futuro. “O futuro se constrói com inclusão verdadeira, reconhecendo quem ficou fora das narrativas oficiais e abrindo espaço para quem historicamente teve menos voz.”

Nesse contexto, o Memorial se consolida como ponte entre gerações. “Qualquer jovem que entrar no Memorial e ver o que está em exposição vai se sentir parte de algo maior”, afirma Rodrigo Trespach. “Vai poder sentir o que seus pais e avós viveram, os desafios que enfrentaram e o que deixaram como legado.”

Ao resgatar histórias como a de Lisbeth Suing, a Sicredi Caminho das Águas não apenas revisita o passado, mas reafirma seu compromisso com um futuro mais inclusivo, participativo e conectado às suas raízes.


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Conteúdo exclusivo publicado na edição 130 da Revista MundoCoop

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