A liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central após a identificação de irregularidades e deterioração da situação financeira da instituição, tornou-se um marco recente no debate sobre governança, gestão de riscos e supervisão no Sistema Financeiro Nacional. Embora o regulador tenha afastado a possibilidade de contágio sistêmico, o caso produziu efeitos relevantes sobre a percepção de segurança do mercado e acendeu alertas importantes para todo o setor financeiro, incluindo o cooperativismo de crédito.
Entre os sinais que antecederam a crise, chamou atenção a estratégia de captação baseada em rentabilidades significativamente superiores às praticadas pelo mercado. As investigações revelaram falhas graves de governança, controles internos frágeis e práticas incompatíveis com os princípios prudenciais que regem o sistema financeiro.
Na avaliação de José Andrés Lopes da Costa, Cofundador e sócio de DCLC Advogados, o colapso de uma instituição raramente é repentino. “Instituições financeiras não quebram da noite para o dia. Elas deterioram lentamente quando controles de risco falham, quando limites prudenciais são tratados como secundários e quando estruturas decisórias deixam de ser independentes”, afirma.
Para Costa, o caso escancara uma combinação perigosa de decisões altamente concentradas, pouca segregação de funções e tolerância recorrente a exceções, um padrão que pode se manifestar em qualquer instituição que opere com recursos de terceiros. Do ponto de vista da supervisão, o episódio reforça a centralidade da atuação do Banco Central e a necessidade de mecanismos que vão além do cumprimento formal das normas.
Ivo Lara, Presidente da Federação Nacional das Cooperativas de Crédito, destaca que o sistema financeiro brasileiro é reconhecido internacionalmente pela robustez regulatória, mas lembra que a complexidade do mercado cresce rapidamente. “Novos processos, novas operações e novos entrantes aumentam essa complexidade. O Banco Central é extremamente atuante, com monitoramento à distância por indicadores ou presencialmente quando necessário”, afirma. Para ele, mesmo com estruturas avançadas, o risco de fraudes nunca é eliminado por completo, mas mitigado, o que exige evolução constante dos controles.
Impacto nas cooperativas
No cooperativismo de crédito, o caso Master teve impacto indireto, sobretudo na percepção dos cooperados. Luiz Lesse Moura Santos, presidente da Confebras, avalia que não houve reflexo sistêmico no segmento. “As operações são independentes e o próprio Banco Central descartou risco de contágio”, ressalta. Ainda assim, segundo ele, o episódio exigiu uma resposta clara do setor. “O principal reflexo foi a necessidade de reforçar a comunicação sobre a solidez e as garantias das cooperativas, para tranquilizar os cooperados em um ambiente de maior cautela no mercado financeiro”, afirma.
A estrutura de proteção do Sistema Financeiro Nacional mostrou-se decisiva para conter impactos mais amplos. Para Lesse, momentos de instabilidade reforçam a importância de mecanismos que preservem a confiança. “A supervisão rigorosa e a governança transparente são fundamentais para evitar riscos sistêmicos”, diz. Ele lembra que, assim como os bancos contam com o Fundo Garantidor de Crédito, as cooperativas possuem um fundo próprio, o FGCoop, elemento central para a proteção dos depósitos dos associados e para a credibilidade do segmento.
Especialistas apontam que uma das principais lições do caso está no fortalecimento da governança interna. José Andrés destaca que estruturas jurídicas sólidas e compliance efetivo funcionam como uma barreira natural contra decisões temerárias. “O compliance não pode ser um apêndice. Precisa fazer parte do centro nervoso da instituição”, afirma. Isso inclui comitês independentes, monitoramento constante de operações sensíveis e políticas rígidas para transações com partes relacionadas. Quando essas instâncias deixam de funcionar, alerta o jurista, a instituição perde sua capacidade de autodefesa.
“Governança não pode ser algo para ficar no papel. É o próprio seguro de sobrevivência da instituição” – JOSÉ ANDRÉS, Cofundador e sócio de DCLC Advogados
No ambiente cooperativo, há fatores estruturais que contribuem para maior resiliência. Ivo Lara lembra que, nas cooperativas, o cooperado é simultaneamente dono e usuário da instituição, o que fortalece os mecanismos de controle. “Os próprios cooperados administram as linhas de defesa por meio de boas práticas e do processo assemblear”, explica. Conselhos fiscais, reuniões de núcleo e canais permanentes de transparência ampliam a fiscalização e reduzem assimetrias de informação.
Ainda assim, o caso Master reforça a necessidade de aprimoramento contínuo. Para José Andrés, as cooperativas devem priorizar a independência real dos comitês de auditoria, risco e crédito, a segregação de funções e a profissionalização da gestão. “Governança não pode ser algo para ficar no papel. É o próprio seguro de sobrevivência da instituição”, afirma. Ele acrescenta que estruturas frágeis aumentam não apenas o risco financeiro, mas também a responsabilização pessoal de administradores.
“O principal reflexo [do caso Master] foi a necessidade de reforçar a comunicação sobre a solidez e as garantias das cooperativas, para tranquilizar os cooperados em um ambiente de maior cautela no mercado financeiro”– LUIZ LESSE, PRESIDENTE DA CONFEBRAS
Do ponto de vista regulatório, o episódio tende a estimular revisões periódicas de controles, modelos de risco e práticas de liquidez em todo o sistema. Para Ivo, embora esse processo seja muitas vezes trabalhoso para as instituições, momentos como esse evidenciam o papel essencial do regulador. “Vemos a importância de um fiscalizador atento, sempre em evolução”, diz, ressaltando o papel das entidades representativas em colaborar com o Banco Central para transformar a experiência prática do setor em controles mais eficazes.
Lições para o futuro
O caso Banco Master consolida-se como um marco de alerta para o sistema financeiro brasileiro. Mais do que um episódio isolado, ele evidencia como fragilidades em governança, controles internos e gestão de riscos podem se acumular ao longo do tempo até comprometer a viabilidade de uma instituição. Em um ambiente cada vez mais complexo e competitivo, a sustentabilidade dos modelos de negócio passa, necessariamente, pela observância rigorosa dos limites prudenciais e pela atuação efetiva das instâncias de compliance.
Para o cooperativismo de crédito, o episódio reforça a importância de comunicar de forma clara seus diferenciais estruturais, ao mesmo tempo em que impulsiona o fortalecimento contínuo de práticas de gestão, transparência e fiscalização interna. A participação ativa dos cooperados, aliada a estruturas de proteção e à supervisão permanente do regulador, constitui um elemento central de resiliência do setor.
Ao fim, a principal lição deixada pelo caso é que a confiança, ativo essencial do sistema cooperativo e no financeiro como um todo, não se constrói por meio de promessas de rentabilidade, mas pela consistência das decisões, pela solidez dos controles e pela capacidade das instituições de demonstrar, de forma permanente, responsabilidade na administração dos recursos.
Por Leonardo César
Matéria exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop

