“O digital não substitui a proximidade, mas a potencializa” – Daniel Martin Ely, CEO do Sistema Unicred

Escrito em 08/04/2026
MundoCoop

A chegada de Daniel Martin Ely como CEO do Sistema Unicred inaugura um novo momento de consolidação para a instituição, marcado por um avanço consistente sobre as bases já construídas. Ocupando uma importante posição no cenário de transformação no sistema financeiro, o foco da nova gestão se volta para tornar mais tangível tudo o que já foi estruturado nos últimos anos, da integração entre cooperativas à evolução da experiência do cooperado.

Com uma trajetória voltada à estratégia, inovação e desenvolvimento de negócios, Daniel Ely assume com o desafio de aproximar ainda mais diretrizes e prática, reduzindo complexidades e fortalecendo a entrega no dia a dia.

Em entrevista exclusiva à MundoCoop, o executivo detalha como pretende avançar em temas como transformação digital, hiperpersonalização e crescimento, sem abrir mão do principal diferencial do modelo cooperativista: a proximidade e a construção de relações de valor.

Confira!

O senhor assume a liderança do Sistema Unicred em um momento de continuidade de uma agenda já estruturada. Quais são as principais prioridades para este novo ciclo?

    Assumo esse novo ciclo com respeito pelo caminho já percorrido e com a percepção de que a Unicred entra em uma fase que o desafio é dar continuidade à transformação que já foi iniciada, inclusive digital e de estrutura.

    Nos últimos anos, houve avanços importantes na integração, na governança e na própria configuração da instituição, incluindo a transição de três para dois níveis. Isso cria uma base sólida. Agora, o ponto central é como essas definições chegam até o cooperado: na agilidade das decisões, na simplificação dos processos e na forma como o atendimento acontece no dia a dia.

    Acredito que a transformação digital entra como suporte para esse ajuste, ajudando a reduzir etapas e tornar a jornada mais direta, com menos barreiras. E existe também um cuidado que considero fundamental: garantir que as diferentes frentes da Unicred avancem de forma conectada, evitando dispersão e aproximando o que foi definido estrategicamente do que acontece na prática.

    O Sistema Unicred tem avançado no fortalecimento da integração entre cooperativas e na consolidação de diretrizes nacionais. Como o senhor enxerga a evolução desse modelo nos próximos anos?

    A integração já deixou de ser apenas um direcionamento e passou a fazer parte do funcionamento. A mudança de três para dois níveis teve um papel central nesse processo: reduziu camadas, aproximou a estrutura central das cooperativas e deu mais objetividade à tomada de decisão. Na prática, isso contribui para uma execução mais direta, com menor sobreposição de iniciativas e melhor uso dos recursos.

    A partir dessa base, o avanço passa menos por estruturar e mais por utilizar melhor o que já está organizado, ampliando o uso de soluções compartilhadas, evitando tratamentos isolados para temas semelhantes e aproveitando o tamanho do Sistema em áreas como tecnologia, produtos e processos.

    Ao mesmo tempo, a relação com o cooperado continua acontecendo no nível local. Escalar não significa padronizar tudo. Significa definir com mais precisão o que pode ser comum e o que precisa permanecer adaptado. É coordenação no que é estrutural e autonomia no que depende da realidade de cada cooperativa. Usar a escala como suporte à operação, sem alterar a forma como a relação é construída.

    A hiperpersonalização e a transformação digital estão no centro da agenda. Em um setor onde a tecnologia virou commodity, o que, de fato, pode diferenciar a experiência da Unicred sem que ela se torne apenas “mais uma” instituição digital eficiente?

    Na minha visão, a tecnologia ganha valor dentro da Unicred quando deixa de ser apenas uma camada de eficiência e passa a atuar como um elemento de integração entre as áreas e de qualificação da relação com o cooperado. Em um cenário em que soluções digitais estão amplamente disponíveis, o diferencial não está na ferramenta em si, mas em como ela é utilizada para gerar contexto, apoiar decisões e fortalecer o vínculo com o cooperado.

    Iniciativas como a DTVM com a ZIIN ilustram bem esse movimento, ao ampliar a capacidade de atuação em investimentos e, ao mesmo tempo, oferecer mais insumos para que o gerente conduza uma relação mais consultiva e estratégica. Esse tipo de evolução permite que a experiência deixe de ser apenas reativa e passe a ser orientada por uma visão mais completa do cooperado.

    Ao longo da minha experiência, o que realmente diferencia é quando a informação já chega estruturada e conectada, facilitando conversas mais relevantes e decisões mais assertivas. Isso reduz fricções operacionais e libera tempo para aquilo que, de fato, gera valor, que é o relacionamento qualificado.

    Nesse contexto, o digital não substitui a proximidade, mas a potencializa. Ele garante continuidade, frequência e consistência na relação, permitindo que a Unicred esteja presente de forma mais natural no dia a dia do cooperado, sem depender apenas de interações pontuais.

    Assim, a hiperpersonalização deixa de ser apenas um conceito tecnológico e passa a ser resultado de uma operação bem-organizada, com uso inteligente de dados e, principalmente, com uma atuação humana mais preparada, próxima e relevante.

    O Sistema Unicred tem forte atuação no ecossistema da saúde. Esse posicionamento seguirá como prioridade ou há espaço para diversificação de públicos e segmentos?

    A Unicred nasceu com médicos que buscavam uma alternativa financeira que realmente fizesse sentido para a própria profissão. Desde então, construiu uma atuação baseada em proximidade, conhecimento do dia a dia e acompanhamento constante, sempre olhando para cada cooperado de forma individual.

    Esse jeito de atuar permite identificar demandas com mais precisão, apoiar decisões mais acertadas e entregar um atendimento que efetivamente agrega valor à rotina dos profissionais da saúde.

    Nesse contexto, há ainda um amplo espaço para crescimento dentro do próprio ecossistema da saúde. Não apenas entre os profissionais, mas também junto a hospitais, clínicas, fornecedores e demais agentes que integram essa cadeia. Trata-se de uma atuação em “águas abrigadas”: ambientes em que a Unicred já possui conhecimento, relacionamento e legitimidade, mas que ainda oferecem grande potencial de expansão e prospecção.

    Assim, o posicionamento no ecossistema da saúde segue como prioridade estratégica, com foco em aprofundar a atuação onde a cooperativa já gera valor e possui diferenciais claros. Ao mesmo tempo, parcerias e alianças desempenham papel relevante nesse movimento, permitindo ampliar a oferta de soluções de forma eficiente, sempre com o objetivo de entregar valor real ao cooperado.

    “O principal desafio está em preservar a qualidade do relacionamento e os valores que fazem parte do modelo, mesmo com uma base maior”

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    O novo posicionamento fala em “o valor de quem cuida”. Como transformar essa ideia em vantagem competitiva, especialmente em um setor financeiro cada vez mais pressionado por eficiência?

    O valor de quem cuida é algo que estou percebendo todos os dias na prática. Não em um atendimento isolado, mas em cada conversa que temos, em como as soluções são apresentadas, vejo que são muito individuais ao momento de cada pessoa, para que ninguém fique sem atenção ou orientação.

    Sei que a pressão por eficiência empurra a simplificação de processos e a redução de etapas. Mas acredito que o verdadeiro desafio está em fazer isso sem perder proximidade, cuidado e o toque humano que faz toda a diferença.

    Para mim, cada decisão, cada orientação e cada interação precisam carregar intenção, presença e atenção de verdade, apoiadas por processos claros e tecnologia que conecte e facilite, sem substituir a escuta, o acompanhamento e o contato direto que tornam a relação viva, sólida e confiável. É nisso que acredito e é assim que estou vendo dentro da Unicred.

    A Unicred vem ampliando sua presença e sua base de cooperados. Quais são os principais desafios para sustentar esse crescimento com consistência?

    Vejo a Unicred crescendo junto com a expansão do cooperativismo de crédito, o que amplia a presença, mas também aumenta a responsabilidade de manter consistência. O principal desafio está em preservar a qualidade do relacionamento e os valores que fazem parte do modelo, mesmo com uma base maior.

    Isso passa por manter um atendimento próximo, decisões bem direcionadas e uma experiência que continue fazendo sentido para o cooperado. Também exige mais alinhamento entre as cooperativas, uma atuação mais integrada e atenção especial a quem representa o Sistema nessa relação direta.

    Essa questão ganha ainda mais força quando a atuação segue conectada às comunidades, com iniciativas como o Unipoupe, voltado à educação financeira de jovens, o Unicred.edu, com acesso a conteúdos e formação, além de ações como o Batalhão do Bem e o Unibem, que aproximam geração de renda, empreendedorismo e apoio social.

    A Unicred já vem trabalhando de forma consistente na integração de soluções que fazem parte da sua atuação, com o objetivo de atender de maneira cada vez mais completa às diferentes necessidades dos cooperados em cada momento.

    Isso se reflete diretamente na evolução do nosso portfólio, que abrange frentes como crédito, investimentos, previdência, seguros e meios de pagamento, e que passa a ser organizado de forma mais integrada ao longo da jornada do cooperado.

    Ao mesmo tempo, o cenário do sistema financeiro mostra que as instituições que mais avançam não são nem as que tentam ter um portfólio extremamente amplo, nem as que atuam com um portfólio excessivamente restrito. Existe um espaço intermediário, em que o portfólio é mais direcionado, bem estruturado e apoiado por tecnologia, permitindo uma entrega mais eficiente e aderente ao perfil do cliente.

    Entre os players de bancos digitais, isso já é visível em modelos que operam com portfólios mais enxutos, porém bem executados e com soluções mais customizadas. Dentro do cooperativismo, essa lógica também se aplica.

    Nesse contexto, a Unicred pode se posicionar combinando tecnologia, proximidade e um portfólio direcionado, sem necessariamente competir na mesma lógica dos grandes players, mas explorando um espaço em que a qualidade da entrega e o relacionamento fazem diferença.

    A transformação digital entra como um meio para viabilizar essa estratégia, qualificando a gestão do portfólio e a forma como essas soluções são entregues ao cooperado.


    Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

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