Nada de “banho de sangue”, muito menos circuit braker. Os Estados Unidos e Israel mataram um aiatolá que comandava uma nação nuclear há mais de 40 anos. A rota de escoamento de um quinto da produção mundial do petróleo está praticamente bloqueada. Mísseis e foguetes cruzam o céu do Oriente Médio desde o último sábado. Mas, tirando a disparada no preço do barril do petróleo, o comportamento do mercado financeiro não é muito diferente do de uma segunda-feira normal. E não é a primeira vez que os investidores naturalizam um acontecimento histórico. Em janeiro, quando os americanos prenderam Nicolás Maduro dentro do próprio território venezuelano, as reações também foram tímidas. O mercado parece não se abalar mais com “essas coisas”.
Economistas, analistas e relatórios que o Exame consultou apontam uma razão. Tanto no caso da Venezuela quanto no Irã, o principal canal de transmissão entre os conflitos e a economia global são as commodities energéticas, sobretudo o petróleo. Um produto em ampla oferta no mercado e que há um tempo não vem encontrado demanda que justifique uma alta de preço. Se ele sobe agora é por conta de um prêmio de risco associado ao conflito. Não por uma mudança estrutural na dinâmica desse mercado.
“Na Venezuela, por exemplo, a extração do ex-presidente Nicolás Maduro foi seguida de compromissos de abertura do setor de petróleo e gás para empresas americanas, reforçando a expectativa de ampliação de oferta. No Irã, na mesma linha, existe uma expectativa que haja uma transição para novo regime, onde a abertura comercial, notadamente do setor de energia, amplie a oferta também”, afirma Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos.
Soma-se a isso o fato de que “a economia global encontra-se em condições razoavelmente boas para suportar o choque decorrente dos últimos acontecimentos”, conforme avalia Rupert Thompson, economista-chefe do Kingswood Group, gestora de recursos britânica. Em seu relatório intitulado “Não precisa entrar em pânico”, Thompson é assertivo ao dizer que o petróleo “simplesmente não é mais importante para a economia global como foi no passado” e afirmar que esse mercado, hoje, depende muito menos da oferta da matéria-prima produzido no Oriente Médio. Ele também observa que os preços da commodity, até então, estão bem distantes do patamar de US$ 120 a US$ 130 que alcançaram quando a Rússia invadiu a Ucrânia.
“O crescimento global será, sem dúvida, ligeiramente reduzido por essa interrupção nas cadeias de suprimentos, e a inflação será um pouco impulsionada tanto por isso quanto pela alta dos preços do petróleo”, prevê o economista britânico, se referindo a bloqueios no estreito de Ormuz, por onde também passa um terço das exportações de fertilizantes e uma boa parte da produção de alumínio refinado — 22% da oferta global sai do Oriente Médio, calcula a StoneX.
“Mas o ponto crucial é que os danos devem ser limitados. A grande surpresa dos últimos anos tem sido a resiliência demonstrada pela economia global diante de uma grande alta nas taxas de juros e de um aumento substancial nas tarifas americanas”, afirma Thompson. “O contexto macroeconômico que antecedeu essa crise era construtivo, com crescimento global estável e taxas de juros em queda. Não esperamos que os últimos acontecimentos comprometam essa tendência, mesmo que a perspectiva se torne um pouco menos positiva do que antes.”
O United Overseas Bank (UOB), de Cingapura, terceiro maior banco do sudeste asiático, tem uma visão bastante semelhante. “Acreditamos que o conflito não vai ter um impacto de longo prazo na inflação ou no crescimento econômico global”, diz relatório da instituição, distribuído nesta segunda-feira, 2.
Ao analisar conflitos importantes do passado, como a Guerra do Golfo, a anexação da Crimeia pela Rússia e a guerra entre Rússia e Ucrânia, o UOB verificou que as ações globais normalmente caíram entre 4% e 8% e levaram de um a três meses para zerar perdas, mesmo quando os conflitos permaneciam sem solução. O banco avalia que os picos de preço nas commodities de energia também tendem a ser temporários e não estruturais.
“Os mercados financeiros tendem a reavaliar rapidamente as incertezas geopolíticas e se estabilizam quando os cenários mais pessimistas não se concretizam”, diz o relatório do UOB.
Lilian Linhares, economista e sócia da Rio Negro Family Office, acredita que os investidores não estão ignorando os riscos. “Eles estão esperando por evidências concretas de que os choques vão se traduzir em efeitos duradouros sobre crescimento, inflação ou fluxo de caixa das empresas. Sem esses dados robustos, o que vemos é um prêmio de risco embutido no preço de commodities, não uma mudança estrutural que justifique uma grande saída de ativos de risco.”
Fonte: Michel Diniz (Exame) com adaptações da MundoCoop

