IA amplia influência sobre decisões financeiras, investimentos e planejamento

Escrito em 30/10/2026
MundoCoop

A inteligência artificial está ampliando seu espaço nas finanças pessoais. Ferramentas generativas já são utilizadas para pesquisar investimentos, comparar alternativas, organizar gastos e simular decisões de longo prazo. Ao mesmo tempo, instituições financeiras avançam na adoção da tecnologia em processos internos e no relacionamento com clientes e cooperados.

No Brasil, os bancos projetam investir cerca de R$ 3 bilhões em inteligência artificial, Analytics e Big Data em 2026, avanço de 8% em relação ao ano anterior, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária. Entre as instituições pesquisadas, 84% utilizam IA e IA generativa em infraestruturas de tecnologia, enquanto agentes inteligentes começam a avançar de atividades operacionais para funções ligadas à geração de valor e ao relacionamento com clientes.

A maior presença dessas ferramentas também começa a mudar a discussão sobre comportamento financeiro. Um estudo publicado em agosto pelo National Bureau of Economic Research analisou como modelos de inteligência artificial orientam decisões sobre gastos, poupança e investimentos e quais seriam os efeitos dessas recomendações ao longo da vida. O trabalho é assinado por Taha Choukhmane, Tim de Silva, Weidong Lin e Matthew Akuzawa, pesquisadores ligados ao MIT Sloan e à Stanford Graduate School of Business.

A pesquisa utilizou perguntas elaboradas por uma amostra representativa de adultos e simulou o que aconteceria caso as recomendações fornecidas por modelos como GPT-5.2 fossem seguidas. Os resultados apontaram maior participação em investimentos diversificados, redução gradual da exposição a ações com o avanço da idade e formação de reservas financeiras maiores.

Os próprios pesquisadores, porém, identificaram limitações. Os modelos tiveram maior dificuldade para adaptar recomendações diante de mudanças como perda de emprego e indicaram redução insuficiente do patrimônio durante a aposentadoria. 

Vieses encontram a tecnologia

As recomendações também não foram iguais para todos. O estudo encontrou diferenças relacionadas à educação financeira e à experiência anterior com IA. Parte delas nasce do próprio usuário, na maneira como cada pessoa descreve sua situação e formula a pergunta. Outra parte aparece na resposta produzida pelo modelo.

Nesse contexto, Denise Maidanchen, CEO da Quanta Previdência e diretora da UniAbrapp, destaca que a IA não elimina nossos vieses. Em alguns casos, ela pode nos ajudar a enxergá-los, já em outros, pode reproduzi-los e até dar a eles uma aparência de racionalidade. “Imagine duas pessoas perguntando para uma IA ‘Tenho R$ 1.000 sobrando. O que faço?’ Uma diz que tem medo de perder dinheiro, que nunca investiu e que prefere segurança. A outra diz que quer maximizar retorno e aceita oscilações. A tecnologia provavelmente construirá caminhos diferentes. E isso é correto até certo ponto. O problema é que, muitas vezes, aquilo que contamos para a IA já carrega nossos medos, crenças e vieses”, explica.

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Denise Maidanchen, CEO da Quanta Previdência e diretora da UniAbrapp

A pesquisa encontrou um exemplo dessa dinâmica ao analisar gênero. Mulheres receberam recomendações de menor exposição a ações. Aproximadamente dois terços da diferença observada entre homens e mulheres estavam associados aos diferentes prompts elaborados pelos próprios participantes. Cerca de um terço permaneceu quando os pesquisadores alteraram apenas o gênero informado ao modelo e mantiveram o restante da pergunta equivalente.

Os pesquisadores também identificaram diferenças na própria linguagem utilizada. Segundo Choukhmane, mulheres mencionaram com maior frequência termos relacionados à família, supermercado e pagamentos, enquanto homens recorreram mais a palavras ligadas a estratégia, criptomoedas e crescimento. As diferenças ajudam a explicar por que parte da desigualdade nas recomendações começa antes mesmo da resposta do algoritmo.

Educação dinanceira ganha uma nova dimensão

O nível de conhecimento financeiro também produziu diferenças. Nas simulações, indivíduos com menor educação financeira chegaram aos 60 anos com patrimônio 4,11% inferior ao grupo com maior conhecimento. A diferença foi associada principalmente à menor exposição recomendada a ativos de risco.

A familiaridade com a própria tecnologia também teve impacto. Participantes sem experiência anterior com IA receberam recomendações que resultaram, na simulação, em patrimônio quase US$ 100 mil menor aos 60 anos, diferença próxima de 6% em relação àqueles que já tinham utilizado essas ferramentas.

Os resultados ampliam o desafio da educação financeira. A IA pode democratizar um tipo de orientação antes mais concentrado em especialistas, mas usuários com maior conhecimento ou familiaridade com a tecnologia tendem a fornecer mais contexto e avaliar melhor as respostas recebidas.

Essa transformação já começa a aparecer no relacionamento entre cooperativas e cooperados. No Sistema Ailos, que vem incorporando ferramentas de IA, a experiência é um exemplo de como essas soluções começam a alterar a maneira como as pessoas chegam às instituições. “Percebemos que o cooperado chega mais informado, mas nem sempre mais preparado. Antes, era mais comum que as pessoas chegassem à Cooperativa com dúvidas básicas. Hoje, cada vez mais, elas chegam depois de consultar ferramentas de inteligência artificial, que podem apoiar a educação financeira ao democratizar conhecimentos que antes estavam mais concentrados em especialistas”, relata Peterson Colares, diretor de Tecnologia do Sistema Ailos.

Segundo Colares, os cooperados também chegam com hipóteses e comparações sobre produtos e taxas e, em alguns casos, procuram a instituição para validar uma recomendação recebida anteriormente pela IA. A experiência sinaliza, porém, uma mudança que irá alcançar também outras cooperativas financeiras.

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Peterson Colares, diretor de Tecnologia do Sistema Ailos.

“Quanto mais a tecnologia evolui, mais importante se torna a capacidade das pessoas de interpretar e contextualizar as informações que recebem. O papel da cooperativa é ajudar o cooperado a fazer exatamente isso. Não basta entregar respostas. É preciso ajudar a entender o significado delas dentro da sua realidade”, destaca o diretor.

Confiança exige atenção

A expansão da IA nas finanças pessoais também despertou a atenção de organismos internacionais. Em julho de 2026, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou um estudo específico sobre o tema. O documento reconhece benefícios relacionados à acessibilidade, personalização e apoio à tomada de decisões, mas aponta riscos envolvendo vieses, influência comercial, privacidade e exclusão. A organização também defende o desenvolvimento de novas competências financeiras para o uso da IA.

Uma das preocupações está na confiança depositada nas respostas. Modelos generativos conseguem organizar informações e produzir análises detalhadas, mas a qualidade do resultado depende dos dados disponíveis e do contexto fornecido pelo usuário. “Existe uma diferença enorme entre perguntar à IA ‘qual é a fórmula dos juros compostos?’ e perguntar ‘posso me aposentar aos 55 anos?’ A segunda resposta depende de inflação, longevidade, tributação, patrimônio, expectativa de retorno, composição familiar, capacidade de poupança e dezenas de hipóteses que podem mudar ao longo de décadas”, explica Denise Maidanchen.

A especialista chama atenção ainda para um ponto importante. “Esse talvez seja o novo viés de autoridade, confundirmos uma resposta bem escrita com uma resposta correta”, afirma Denise Maidanchen.

Nas cooperativas, a tecnologia pode assumir atividades relacionadas à organização e ao acesso à informação, enquanto o atendimento passa a concentrar aspectos que dependem do contexto individual. “O verdadeiro diferencial não está apenas em oferecer tecnologia de ponta, mas em combinar tecnologia com orientação humana, proximidade e conhecimento da realidade de cada indivíduo. Porque uma boa decisão financeira não depende apenas dos números. Ela depende também do contexto, dos objetivos e dos valores de cada cooperado”, afirma Peterson Colares.

Com o avanço da IA, consumidores e instituições passam a lidar com uma nova etapa no processo de decisão, ampliando, assim, o campo da educação financeira. Conhecimentos sobre juros, inflação, investimentos e planejamento permanecem necessários, mas passam a conviver com habilidades relacionadas ao uso das novas ferramentas. “Acredito que precisamos evoluir da educação financeira baseada em conteúdo para uma educação financeira baseada em capacidade de decisão”, resume a CEO. 


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

CAPA 135

Matéria exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop

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