Questões tributárias, regulatórias, trabalhistas e de crédito estão entre os temas que impactam diretamente o dia a dia das cooperativas. Diante de um ambiente cada vez mais complexo para a formulação de políticas públicas, o cooperativismo brasileiro tem ampliado seus investimentos em formação política e representação institucional.
O movimento ganhou força por meio do Programa de Educação Política, iniciativa do Sistema OCB que busca qualificar a participação de dirigentes, cooperados e lideranças nos espaços de decisão. A estratégia parte da compreensão de que a defesa dos interesses do setor depende de uma base preparada para acompanhar debates públicos e compreender seus impactos.
Segundo Eduardo Queiroz, gerente de Relações Institucionais do Sistema OCB, a formação política passou a ocupar posição central dentro do RepresentaCoop, eixo de atuação do Sistema OCB voltado para a representação política, institucional e sindical do cooperativismo brasileiro, justamente por essa necessidade.
“A educação política ganhou espaço estratégico dentro do RepresentaCoop porque entendemos que uma representação institucional forte começa pela compreensão de como as decisões públicas afetam a vida das cooperativas e dos cooperados”, aponta Queiroz.
O contexto ajuda a explicar essa prioridade. Com cerca de 29 milhões de cooperados e presença em diferentes setores da economia, o cooperativismo passou a demandar uma atuação mais estruturada junto aos formuladores de políticas públicas.
“Educação política, nesse contexto, significa oferecer informação e ferramentas para que cooperativas, dirigentes e cooperados compreendam melhor esse ambiente, acompanhem as decisões que impactam o setor e participem do debate público de maneira consciente, responsável e propositiva”, complementa.
Da formação à mobilização nacional
Criado inicialmente como uma experiência piloto, o programa evoluiu para uma estratégia nacional organizada em ciclos de quatro anos. Ao longo desse período, a iniciativa ampliou sua estrutura e fortaleceu a articulação entre o Sistema OCB e as organizações estaduais.
Queiroz destaca que um dos principais resultados foi a construção de um processo de capacitação voltado à representação institucional. “Eu destacaria como principal avanço a construção de um processo permanente de formação dos nossos representantes cooperativistas sobre a importância das políticas públicas para o desenvolvimento do nosso modelo de negócios”, aponta.
O ciclo atual foi estruturado de forma progressiva. Em 2023, o foco esteve na consolidação das áreas de relações governamentais. Em 2024, o trabalho avançou para a especialização das equipes. Em 2025, o programa ampliou a formação de multiplicadores dentro das cooperativas. Já em 2026, a prioridade passou a ser a mobilização da base cooperativista.
Segundo o gerente, essa trajetória permitiu ampliar a capilaridade da atuação institucional do setor. “Hoje, temos uma rede mais preparada para compreender o ambiente político, acompanhar pautas, dialogar com representantes públicos e levar informações qualificadas às cooperativas.”
Entre os instrumentos desenvolvidos, estão materiais como a publicação Propostas para um Brasil Mais Cooperativo, a Cartilha Cooperativismo e as Eleições 2026 e o Perfil Parlamentar, que reúne informações públicas sobre a atuação de deputados e senadores em temas relacionados ao movimento cooperativista.
Participação cidadã e neutralidade partidária
Com as eleições de 2026 se aproximando, o programa entrou em uma fase voltada à mobilização dos cooperados. A proposta, segundo a entidade, é estimular o acompanhamento da agenda pública sem vinculação partidária.
“Esse é um princípio central do programa. Nossa atuação é focada no cooperativismo, preservando a neutralidade político-partidária. As ações que nós promovemos estão baseadas em informação, participação cidadã e liberdade de escolha”, ressalta Eduardo.
A campanha Pense no Coop é uma das iniciativas desse ciclo. O objetivo é incentivar o conhecimento das propostas em discussão, o acompanhamento da atuação dos representantes públicos e a compreensão dos impactos das decisões políticas sobre as cooperativas. “O papel do Sistema OCB é apresentar as pautas do cooperativismo, explicar como as decisões políticas afetam as cooperativas e oferecer instrumentos para que cada pessoa forme sua própria opinião e exerça sua cidadania de maneira consciente e responsável”, complementa.
Uma rede de representação em todo o país
A expansão das áreas de relações governamentais nos estados e a formação de multiplicadores são apontadas como elementos centrais para ampliar a presença do cooperativismo nos espaços de decisão. “O Brasil tem dimensões continentais e realidades econômicas, sociais e políticas muito diversas. Por isso, uma representação efetivamente nacional precisa combinar uma estratégia coordenada com capacidade de atuação nos estados e nos territórios.”
Na prática, as equipes estaduais acompanham agendas locais e mantêm interlocução com os poderes públicos, enquanto os multiplicadores levam o conteúdo do programa para dentro das cooperativas. Esse fluxo permite que demandas regionais cheguem à estratégia nacional de representação e, ao mesmo tempo, que informações qualificadas retornem à base.
O desafio de construir uma cultura permanente
Embora os períodos eleitorais ampliem o interesse pelo tema, a meta do Sistema OCB é consolidar uma cultura contínua de participação nos debates públicos. Para isso, a entidade aposta na ampliação da formação política, no fortalecimento das estruturas de representação e no engajamento de novos públicos, especialmente jovens e mulheres.
“O principal desafio é transformar a participação política em uma cultura permanente, que vá além dos períodos eleitorais”, pontua Queiroz.
Na avaliação do representante, a dimensão alcançada pelo cooperativismo brasileiro abre espaço para uma atuação mais relevante na construção de propostas para o país. Nesse cenário, acompanhar políticas públicas, compreender propostas em discussão e participar dos espaços de diálogo passa a integrar de forma mais incisiva a estratégia de desenvolvimento do movimento cooperativista.
Por Leonardo César – Redação MundoCoop
Matéria exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop

