Pesquisa do BC apresenta ambiente mais desafiador para o crédito enquanto cooperativas ampliam presença

Escrito em 08/09/2026
MundoCoop

A inadimplência ganhou espaço entre as principais preocupações das instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional (SFN). Na Pesquisa de Estabilidade Financeira do terceiro trimestre de 2026, divulgada pelo Banco Central, 26% dos participantes apontaram “inadimplência e atividade” como o risco mais importante para os próximos três anos, acima dos 21% registrados em maio. O tema ficou atrás apenas dos riscos fiscais, mencionados por 34% dos respondentes.

O avanço ocorre em um ambiente marcado pelo alto endividamento de famílias e empresas e pela manutenção de taxas de juros elevadas. Quando as instituições puderam indicar três riscos, e não apenas o principal, inadimplência e atividade passaram a liderar as citações, superando questões fiscais e o cenário internacional. Para o Banco Central, os resultados indicam um acúmulo de preocupações relacionadas à estabilidade financeira, embora a confiança no SFN permaneça elevada.

Realizada entre 2 e 28 de julho, a pesquisa reúne a percepção de bancos, cooperativas, instituições de pagamento, gestoras, seguradoras e entidades de previdência complementar. Os resultados são apresentados de forma agregada e, portanto, não permitem identificar isoladamente a avaliação das cooperativas. A participação do segmento, porém, coloca o cooperativismo dentro de uma discussão que ganha importância à medida que sua presença no sistema financeiro brasileiro aumenta.

Inadimplência ganha espaço

A mudança fica mais evidente na comparação com o início do ano. Considerando os três riscos apontados por cada instituição, inadimplência e atividade avançaram de uma frequência média de 0,63 citação por respondente em fevereiro para 0,72 em maio e 0,81 em agosto. No mesmo período, as menções aos riscos fiscais recuaram de 0,64 para 0,60, enquanto o cenário internacional permaneceu relativamente estável.

A percepção das instituições sobre a economia ajuda a explicar esse movimento. A pesquisa mostra que a alavancagem de famílias e empresas continua elevada e que a maior parte dos respondentes classifica o atual momento do ciclo econômico como de contração. Ao mesmo tempo, diminuiu a preocupação com o chamado hiato de crédito, indicador utilizado para avaliar o ritmo de expansão dos empréstimos em relação à economia.

Cooperativas ampliam relevância

O cenário encontra um cooperativismo de crédito significativamente maior. Dados do Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC), também divulgado pelo Banco Central, mostram que o segmento encerrou 2025 com 21,2 milhões de cooperados, presença em 59% dos municípios brasileiros e mais de R$ 1 trilhão em ativos. As operações de crédito continuam como o principal componente desses ativos, com atuação relevante junto a micro, pequenas e médias empresas e ao setor agroindustrial.

Essa expansão faz com que movimentos relacionados à qualidade do crédito, ao endividamento e à atividade econômica tenham peso crescente para a gestão das cooperativas. O próprio Panorama registrou aumento do risco da carteira do SNCC em 2025 tanto entre pessoas físicas quanto entre pessoas jurídicas, aproximando a realidade específica do segmento de parte das preocupações que agora aparecem com maior intensidade na Pesquisa de Estabilidade Financeira.

O avanço do risco, contudo, não significou deterioração equivalente da estrutura financeira das cooperativas. Segundo o Banco Central, as provisões do segmento permaneceram acima das perdas esperadas, os resultados agregados continuaram positivos e os índices de capital seguiram em níveis confortáveis em relação aos limites prudenciais.

Confiança permanece elevada

A combinação entre maior cautela com o crédito e manutenção de indicadores de solidez também aparece no cenário mais amplo. Apesar da nova queda marginal registrada no terceiro trimestre, a confiança das instituições na estabilidade do SFN continua elevada. A pesquisa acompanha justamente a expectativa dos participantes para os próximos três anos e mostra que o aumento das preocupações não representa, neste momento, uma percepção generalizada de instabilidade financeira.

Para as cooperativas, o novo ambiente acompanha uma etapa de maior escala e participação no sistema financeiro. Com uma carteira de crédito crescente e presença cada vez mais ampla entre famílias e empresas, a evolução da inadimplência passa a exigir atenção adicional, ao mesmo tempo em que os indicadores do Banco Central mostram que o segmento chega a esse cenário com provisões, resultados e níveis de capital capazes de sustentar sua operação diante de um ciclo mais desafiador.


Por Redação MundoCoop com informações do Banco Central

.