Entre os dias 19 e 22 de julho, a cidade australiana de Sydney recebeu a World Credit Union Conference (WCUC), o principal encontro internacional do cooperativismo de crédito. Promovido pelo World Council of Credit Unions (WOCCU), o evento reuniu mais de 2.400 profissionais de cooperativas financeiras vindos de 39 países, conforme dados divulgados pela própria entidade organizadora. Sob o tema “Um movimento, muitas vozes”, a conferência abriu espaço para discutir os desafios que atravessam fronteiras e moldam o futuro do setor.
Ao longo dos quatro dias de programação, temas como segurança cibernética, inteligência artificial, geopolítica, moedas digitais e inclusão financeira dominaram os painéis e as conversas.
Na abertura da programação, o presidente e CEO do WOCCU, Paul Treinen, convidou as lideranças a se prepararem para um cenário financeiro em rápida transformação. Em seu discurso, intitulado “Building for What’s Next”, ele destacou pressões compartilhadas pelo movimento em todo o mundo, como regulação, tecnologia, concorrência, mudanças demográficas e expectativas crescentes dos associados. “Não precisamos escolher entre inovação e identidade, ou entre tecnologia e confiança. Nossa oportunidade é reunir tudo isso: usar a inovação para aprofundar a confiança, a tecnologia para ampliar o acesso e o crescimento para fortalecer comunidades”, afirmou Treinen.
A geopolítica também ocupou lugar central. Durante o painel “How Geopolitics Are Affecting Credit Unions and How to Address the Challenges”, especialistas analisaram como restrições comerciais, sanções, mudanças nos sistemas de pagamento e a fragmentação política têm afetado as cooperativas de crédito e seus associados ao redor do mundo, reforçando a necessidade de planejamento de riscos e de adaptação a uma vida financeira cada vez mais sem fronteiras.
Outra frente relevante foi a dos pagamentos internacionais. A sessão “Enhancing the Cross-Border Payment Member Experience Through Credit Unions” apresentou um projeto-piloto de remessas digitais que envolveu Visa, WOCCU, a Unitus Community Credit Union e a guatemalteca MICOOPE. “Neste piloto, provamos que o processo, a tecnologia e a segurança estão prontos para conectar associados de cooperativas de crédito ao restante do mundo. Isso abre a porta para que metas de inclusão financeira sejam alcançadas globalmente”, disse Steven Stapp, presidente e CEO da Unitus Community Credit Union.
As moedas digitais também entraram na pauta, com a sessão “Stablecoins, Tokenized Deposits, CBDCs: What Does It All Mean for Credit Unions?”, que discutiu os impactos dessas tecnologias. “As regulações estão sendo desenvolvidas agora, e é fundamental que as cooperativas de crédito façam parte dessa conversa, mesmo que essas tecnologias não sejam uma prioridade imediata para suas instituições ou associados. Não podemos permitir que as regulações sejam finalizadas sem a perspectiva das cooperativas de crédito”, alertou Erin O’Hern, conselheira regulatória do WOCCU.
A inclusão financeira de comunidades historicamente excluídas, como imigrantes e refugiados, também foi debatida, com exemplos vindos dos Estados Unidos, da União Europeia e do próprio Brasil. Já o reconhecimento à inovação tecnológica veio por meio dos Digital Growth Awards 2026, concedidos a iniciativas do Nepal, da Costa Rica e do Vietnã que ampliaram o acesso a serviços financeiros por meio de biometria, pagamentos por QR code e ecossistemas digitais integrados a sistemas de identificação nacional.
A próxima edição da conferência já tem data e sede definidas. Acontecerá entre 25 e 28 de julho de 2027, em Dublin, na Irlanda.
O OLHAR BRASILEIRO
Se a programação em Sydney trouxe um panorama global do cooperativismo financeiro, também reservou destaque especial à experiência brasileira. O país, um dos que mais cresce no segmento em todo o mundo, marcou presença por meio de delegações do Sicoob, do Sicredi, da Cresol e do Sistema OCB, que juntas reforçaram o protagonismo nacional em um dos fóruns mais relevantes do setor.
Representando o Sistema OCB, a superintendente Fabíola Nader Motta participou do painel sobre os impactos da geopolítica no cooperativismo de crédito, ao lado de lideranças do Canadá, dos Estados Unidos e da Austrália. Na ocasião, apresentou a trajetória de consolidação do modelo brasileiro e a forma como o ambiente regulatório construído nos últimos anos contribuiu para o crescimento sustentável do setor.
Coordenador do Ramo Crédito do Sistema OCB, Thiago Borba reforça que participar da WCUC é uma experiência importante para os atuantes no setor. “A WCUC permite conhecer experiências que já estão sendo implementadas em outros mercados, avaliar o que pode ser adaptado à realidade brasileira e, ao mesmo tempo, apresentar ao mundo os avanços que construímos no Brasil. É um ambiente de aprendizado, articulação e cooperação, que contribui para tornar o sistema cooperativo mais preparado, inovador e resiliente”, afirma.
Para Borba, a solidez do modelo nacional está diretamente ligada à sua organização sistêmica. “As cooperativas conseguem compartilhar tecnologia, estruturas operacionais, gestão de riscos, segurança e outros serviços, ao mesmo tempo em que mantêm sua presença local e sua proximidade com os cooperados”, explica.
IMPACTO NA PRÁTICA
A Cresol, que integra o Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito desde 2024, levou a Sydney uma delegação formada por presidentes e executivos de diferentes centrais. Para o presidente da Cresol Confederação, Cledir Magri, participar de um evento dessa magnitude ajuda a instituição a projetar seus próximos passos com mais segurança. “Na medida que a gente tem a sensibilidade e a capacidade de fazer essa leitura, olhando a trajetória construída, entendendo o momento atual e principalmente pensar o futuro, nós temos um dos maiores ganhos, porque isso nos ajuda a ter uma capacidade maior de assertividade nas decisões, nos projetos, no direcionamento do sistema”, avalia Cledir Magri, presidente da Cresol Confederação.
Questionado sobre como equilibrar a vocação regional da Cresol, originalmente enraizada em comunidades menores, com a agenda de digitalização discutida em Sydney, Magri defende uma convivência entre os dois modelos, e não uma escolha excludente entre eles. “A gente precisa ter o digital para o cooperado utilizar sempre que ele precisar. Ele pode escolher, ele vai ter essa experiência digital. Mas se ele precisar do humano a Cresol estará presente. Essa tese da conciliação do digital com o humano seguirá sendo um ponto fundamental e um grande diferencial do modelo cooperativista”, diz Cledir Magri, presidente da Cresol Confederação.
O dirigente também destacou o peso da delegação brasileira no evento. “O Brasil historicamente sempre foi uma das maiores delegações da conferência. Normalmente, a primeira é o país-sede e a segunda acaba sendo a norte-americana ou a brasileira. E ao mesmo tempo o Conselho Mundial sempre nos recebe como um case, um modelo importante de crescimento, de expansão, de evolução, de tecnificação”, pontua Cledir Magri.
O Sicredi, por sua vez, levou a Sydney uma das maiores delegações entre as instituições brasileiras, com cerca de 100 representantes. Diretor do WOCCU e presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ, Manfred Alfonso Dasenbrock avalia que a presença ampliada fortalece o alinhamento interno do Sistema. “Além de acompanhar tendências globais e ampliar conexões com cooperativas de diversos países, a presença em uma conferência dessa dimensão contribui para trazer novos conhecimentos ao Brasil, que podem ser incorporados às estratégias do Sistema em temas como inovação, sustentabilidade, inclusão financeira e desenvolvimento de lideranças jovens e mulheres líderes”, afirma Manfred Alfonso Dasenbrock, Diretor do Woccu e presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ.
Um dos capítulos mais celebrados pela instituição em Sydney foi o reconhecimento de dois jovens associados no WYCUP 2026. Daniel Andrade, da Sicredi Vale do Piquiri ABCD PR/SP, e Washington Filho, da Sicredi Sudoeste MT/PA, foram premiados por projetos voltados à empregabilidade de jovens e ao aproveitamento sustentável de resíduos da cadeia do açaí, respectivamente. “Estamos muito orgulhosos do Daniel e do Washington. Ao longo dos anos já inscrevemos mais de 100 cases e tivemos mais de 20 jovens reconhecidos internacionalmente, esse movimento também gera repercussão e cada vez mais interesse dos nosso jovens talentos, movimentando nossos comitês locais e garantindo engajamento”, relata Manfred.
Durante a conferência, o Sicredi também formalizou acordos de intercooperação com a Confederação Africana de Associações Cooperativas (ACCOSCA) e entre a Fundação Sicredi e a Fundação WOCCU, além de financiar uma nova plataforma global de conexão entre jovens e mulheres lideranças, anunciada pelo presidente da Worldwide Foundation for Credit Unions, Mike Reuter, e com lançamento previsto para 2027.
Pelo Sicoob, a gerente de Estratégia e Performance Corporativa, Louize Oliveira, integrou o painel “A colaboração como uma estratégia de crescimento”, um dos mais concorridos da conferência. Nele, apresentou como o sistema da instituição impulsionou o crescimento de cooperativas de diferentes segmentos econômicos. “Os números mostram isso: desde a sua criação até os dias atuais, o sistema Sicoob saiu de 733 cooperativas singulares para 315 e, de 291 pontos de atendimento para 4.438. Com maior eficiência, as cooperativas de crédito conquistaram mais cooperadosrob”, relata.
Ainda segundo Louize, o modelo multinível brasileiro, testado e validado internamente, ainda é pouco replicado em outras partes do mundo, o que reforça a relevância da experiência nacional nesses fóruns. “Esse modelo, já testado e validado no Brasil, não é tão comum em outros países. Durante o painel, Matt Bland, CEO da All Together Money, ressaltou que a legislação historicamente restritiva limitou o crescimento e o escopo de serviços das cooperativas de crédito no Reino Unido, criando uma estrutura mais fragmentada. No entanto, as recentes reformas regulatórias e o apoio governamental estão possibilitando maior colaboração e escalabilidade”, conta Louize.
Sobre os aprendizados internacionais mais relevantes trazidos de Sydney, a executiva do Sicoob destaca o papel da governança como base para qualquer estratégia de crescimento colaborativo. “Uma estrutura de governança robusta e o comprometimento da liderança são essenciais para o sucesso da colaboração em um sistema de cooperativas de crédito. Isso gera coesão na visão de futuro do sistema, constrói confiança e permite o compartilhamento de recursos, possibilitando a escalabilidade do negócio e fomentando uma relação ganha-ganha para todas as partes: cooperativas de crédito, cooperados e comunidade.”
OS PRÓXIMOS PASSOS
Encerrada a conferência, o desafio que se impõe às lideranças brasileiras é o de transformar os aprendizados trazidos de Sydney em estratégia concreta para os próximos anos. Afinal, o consenso é de que o crescimento do setor no país dependerá da capacidade de equilibrar escala tecnológica com a proximidade que sempre caracterizou o modelo cooperativo.
Para o Sistema OCB, esse equilíbrio passa por três frentes prioritárias. “No curto prazo, precisamos ampliar o compartilhamento de informações e boas práticas, fortalecer a capacitação das lideranças e acelerar a adoção responsável de tecnologias que melhorem a eficiência e a experiência do cooperado. No médio prazo, o aprendizado é que o crescimento sustentável dependerá da capacidade de equilibrar escala e identidade”, projeta Thiago Borba.
Na Cresol, a visão de futuro passa pela ampliação das trocas internacionais já em curso, com a chegada de uma nova delegação do Conselho Mundial à sede da cooperativa e a consolidação de sua experiência em finanças voltadas à agricultura familiar. “Essas conexões vão, ao mesmo tempo, fortalecendo a Cresol e, a partir da nossa vivência, fazem com que os demais membros também possam aprimorar e qualificar os seus processos. É um processo de mão dupla, uma construção colaborativa”, indica Cledir Magri.
Já no Sicredi, o horizonte inclui dar continuidade aos programas de formação de jovens lideranças e aprofundar parcerias internacionais. “A partir dessa projeção internacional, o objetivo é continuar fortalecendo programas de formação e participação dos jovens associados, especialmente por meio dos comitês jovens de cada cooperativa. Além disso, buscamos estimular a troca de experiências entre diferentes regiões do nosso Sistema, ampliando oportunidades para que novas lideranças possam contribuir com o desenvolvimento do cooperativismo”, conclui Manfred Dasenbrock.
No Sicoob, as prioridades para o curto e médio prazo passam pela tecnologia, mas também por um tema menos evidente, a governança compartilhada dos recursos comuns ao sistema. “Vejo três frentes ganhando força. A primeira é a discussão sobre novas tecnologias, stablecoins e moeda digital. A segunda é o fortalecimento de sistemas multiníveis de cooperativas para ganhar escala tecnológica sem sacrificar a autonomia local. E a terceira, que particularmente chamou minha atenção, é aprofundar o estudo sobre governança dos comuns como base para desenhar os próximos passos do cooperativismo de crédito”, afirma Louize Oliveira.
O que a WCUC 2026 deixou claro, na leitura das lideranças brasileiras, é que a próxima fase do cooperativismo financeiro não será definida isoladamente por nenhum país. Ela dependerá da capacidade de sistemas como o brasileiro, já reconhecidos internacionalmente por sua solidez regulatória e sua escala, de seguir compartilhando soluções que as tornem mais efetivas e ativas no mercado. Como resume Thiago Borba, do Sistema OCB, “o Brasil tem muito a aprender com outros países, mas também possui uma experiência relevante para compartilhar. A WCUC mostrou que essa troca pode ajudar a preparar o cooperativismo financeiro para um cenário mais complexo, mantendo o cooperado no centro das decisões”.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop
Matéria exclusiva publicada na edição 133 da Revista MundoCoop

