Cidades inteligentes exigem gestão inteligente: os caminhos até 2030

Escrito em 02/05/2026
Mundo Coop

A construção de cidades inteligentes no Brasil vai além da simples digitalização de serviços e passa por uma transformação estrutural da gestão pública, com foco em dados, eficiência e impacto real na vida da população. Mais do que tecnologia, o avanço está na capacidade de integrar planejamento, governança e tomada de decisão baseada em evidências.

Para entender melhor esse processo e como o Brasil caminha nesse sentido, a MundoCoop conversou com a Dra. Grazi Carvalho, Head de Inovação na LICI GovTech. Na conversa, ela explora caminhos práticos para esse avanço, destacando o papel da geoinformação, da governança orientada por dados e das novas lideranças na construção de territórios mais sustentáveis e eficientes.

ENTREVISTA Grazi
Dra. Grazi Carvalho, Head de Inovação na LICI GovTech

1. O conceito de cidades inteligentes evoluiu muito além da tecnologia. Na sua visão, qual será o principal diferencial entre cidades que apenas digitalizam serviços e aquelas que realmente se tornarão inteligentes até 2026?

A ideia de que uma cidade pode simplesmente “se tornar inteligente” em um curto prazo é um equívoco bastante comum. A transformação de uma cidade em um território mais eficiente, sustentável e orientado a dados é um processo estrutural, que envolve mudanças institucionais, capacidade técnica e maturidade na gestão pública. Portanto, nenhuma cidade se tornará plenamente inteligente até 2026 — o que veremos são cidades em diferentes estágios desse processo.

O principal diferencial entre municípios que apenas digitalizam serviços e aqueles que realmente caminham para se tornar cidades inteligentes está na forma como utilizam a tecnologia para resolver problemas públicos de maneira estruturada. Digitalizar um serviço pode melhorar a interface com o cidadão, mas não necessariamente transforma a capacidade do governo de planejar e executar políticas públicas.

Cidades que avançam são aquelas que investem em capacitação dos servidores, qualificam seus processos e adotam uma gestão orientada por dados. Quando tecnologia, capacidade institucional e governança caminham juntas, a cidade passa a antecipar soluções e aplicar melhor os recursos públicos, gerando impactos reais como melhores serviços e maior transparência.

2. Você defende a geoinformação como base para decisões urbanas. Como os municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte, podem estruturar uma infraestrutura de dados eficiente mesmo com limitações orçamentárias?

A geoinformação é uma base fundamental para qualificar a tomada de decisão na gestão pública. Quando o território passa a ser analisado com dados estruturados, o gestor deixa de atuar de forma reativa e passa a planejar com maior precisão.

Mesmo com limitações, municípios de pequeno porte podem estruturar uma infraestrutura de dados eficiente. Um caminho viável é o fortalecimento de consórcios intermunicipais, que permitem compartilhar tecnologia e custos. Também há acesso a linhas de financiamento voltadas à modernização da gestão, com alto potencial de retorno ao município, especialmente na melhoria da arrecadação e do planejamento territorial.

Outro ponto importante é começar organizando dados já disponíveis de bases públicas. A partir disso, o município pode evoluir gradualmente. Mais do que tecnologia, trata-se de estruturar informações estratégicas que fortalecem a gestão e ampliam a eficiência do uso dos recursos públicos.

3. Com a crescente pressão por resultados e indicadores na gestão pública, como a governança orientada por dados deve transformar a relação administrativa nas cidades, nos próximos anos?

A pressão por resultados na gestão pública tem aumentado, impulsionando a necessidade de demonstrar o impacto real das políticas públicas. Nesse contexto, a governança orientada por dados tende a transformar como as administrações municipais planejam, executam e monitoram suas ações.

Nos próximos anos, a gestão pública será cada vez mais baseada em evidências. Decisões sobre investimentos e políticas precisarão estar apoiadas em indicadores e diagnósticos, além de sistemas de monitoramento que acompanhem resultados ao longo do tempo.

Essa transformação também promove maior integração entre áreas da administração, permitindo atuação mais coordenada. Quando bem estruturada, fortalece a capacidade de decisão, melhora o uso de recursos públicos e aproxima a gestão dos resultados que impactam a população.

4. A Agenda 2030 e as diretrizes nacionais vêm exigindo maior integração entre planejamento urbano, sustentabilidade e inovação. Onde você enxerga hoje o maior gargalo para que as cidades brasileiras avancem de forma sistêmica? Como caminhar para uma solução efetiva?

O maior gargalo para que as cidades brasileiras avancem de forma sistêmica não está na falta de diretrizes, mas na capacidade de integração e execução dessas agendas dentro da gestão pública.

Na prática, muitos municípios possuem planos elaborados de forma isolada, sem conexão entre si e sem mecanismos claros de monitoramento, o que gera fragmentação das políticas públicas. Além disso, há limitações na capacidade institucional, com equipes reduzidas e pouca estrutura técnica.

Avançar exige organizar informações estratégicas, definir prioridades e estabelecer monitoramento. Também é fundamental investir em governança e capacitação. Inovação urbana, nesse contexto, significa melhorar a capacidade de planejar e executar políticas públicas de forma integrada.

5. Olhando para o horizonte de 2026 a 2030, e considerando que estamos caminhando para um novo ciclo na administração pública, quais competências e perfis de liderança serão indispensáveis para conduzir projetos de cidades inteligentes com impacto real na vida da população?

Entre 2026 e 2030, os projetos de cidades inteligentes exigirão lideranças mais estratégicas, capazes de articular visão de longo prazo, capacidade técnica e coordenação entre diferentes áreas da gestão pública.

Uma das competências centrais será a capacidade de usar dados para orientar decisões. Líderes precisarão compreender diagnósticos territoriais, indicadores e sistemas de monitoramento para priorizar investimentos e avaliar resultados.

Também será essencial integrar políticas públicas e estruturar projetos de forma técnica, além de mobilizar diferentes atores. Líderes que combinarem visão sistêmica, gestão orientada por dados e capacidade de articulação terão maior impacto real na vida da população.


Por Leonardo César, Redação MundoCoop

DESTAQUE ED. 129

Entrevista exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop

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