Tecnologia com propósito: como a IA generativa pode fortalecer o cooperativismo

Escrito em 16/01/2026
Mundo Coop

A inteligência artificial generativa deixou para trás a fase de experimento e, hoje, se tornou realidade na rotina das empresas em escala global, movimento que se aplica diretamente ao cooperativismo e a seu ecossistema de negócios. Segundo uma pesquisa conduzida pela McKinsey & Company, 78% das organizações em todo o mundo já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma função em 2025. Isso representa um salto significativo em relação aos anos anteriores e um indicativo claro de que a tecnologia está deixando de ser promessa para se tornar infraestrutura essencial nas operações empresariais.

No entanto, mesmo que haja muita informação sobre a IA generativa em toda a rede, ainda existem muitas dúvidas sobre o seu uso e como a ferramenta pode realmente impactar positivamente o negócio que, no caso do cooperativismo, passa obviamente por elementos como intercooperação, transparência, participação democrática, inclusão, governança ética e valorização das pessoas.

Ben-Hur Correia, jornalista e pesquisador em inteligência artificial, diz que em primeiro lugar é essencial entender o papel essencial da IA generativa como mediadora de conhecimento. “Costumo dizer que ela é o maior tradutor que já inventamos. Um dos grandes entraves da democracia em qualquer organização é a assimetria de informação. Relatórios complexos, balanços financeiros cheios de termos técnicos e dados frios acabam afastando o cooperado do processo decisório. A IA generativa consegue pegar esse material árido e transformá-lo em explicações simples, em texto ou áudio, adaptadas à realidade de cada pessoa. Isso gera o que eu chamo de transparência radical”, explica.

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“A IA generativa é o maior tradutor que já inventamos. Quando a informação se torna compreensível, a participação deixa de ser formal e passa a ser real”, Ben-Hur Correia, jornalista e pesquisador em inteligência artificial

Segundo ele, quando a informação passa a ser compreendida por todos, a participação deixa de ser formal e se torna efetiva. “A democracia cooperativa só funciona quando as pessoas entendem o que está sendo decidido. A IA generativa reduz drasticamente essa distância entre quem produz a informação e quem precisa usá-la para deliberar”, completa.

No campo da intercooperação, Ben-Hur enxerga a tecnologia como uma camada de inteligência coletiva. “Hoje, muitas cooperativas têm dados valiosos, mas isolados. A IA generativa pode atuar por cima desses sistemas, encontrando sinergias e oportunidades de negócios entre cooperativas, sem necessariamente expor dados sensíveis. Isso cria uma inteligência compartilhada, algo muito alinhado ao espírito cooperativista”, opina.

Essa visão também é compartilhada pela AI Fashion Architect Amanda Momente. “A IA generativa pode funcionar como aquele tradutor oficial da cooperativa. Sabe quando um documento parece escrito em outra língua? A tecnologia transforma isso em algo acessível, fácil de entender. Isso melhora a transparência e coloca todos na mesma página”, explica.

Para ela, a participação democrática também se fortalece quando a ferramenta é usada para organizar vozes. “Em processos participativos, ela consegue ler centenas de opiniões, sugestões e comentários, identificar padrões e mostrar os pontos em comum, sem apagar a diversidade. É como uma grande caixa de sugestões inteligente, que não deixa ninguém de fora”, observa.

Da hiperpersonalização no crédito ao “agrônomo de bolso”: a IA generativa ganha escala no cooperativismo

No universo do cooperativismo, os usos práticos da IA generativa já começam a se consolidar, especialmente em áreas como crédito, agro, saúde e consumo. O jornalista e pesquisador em IA Ben-Hur Correia destaca que a transição é clara: “Estamos saindo da era da segmentação para a era da hiperpersonalização. No crédito, por exemplo, a IA generativa não olha apenas o score frio. Ela consegue analisar o contexto de vida do cooperado, prever riscos e oferecer produtos financeiros no momento exato, quase como um consultor financeiro pessoal. Isso muda completamente a relação entre a cooperativa e o cooperado”, adianta.

Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria, empresa de consultoria de IA aplicada aos negócios, reforça ainda que, nas cooperativas de crédito, a IA generativa já demonstra impacto concreto no relacionamento. “Ferramentas de atendimento baseadas em IA generativa agilizam respostas, reduzem filas e melhoram a experiência do cooperado. Ao mesmo tempo, a automação de tarefas administrativas, como relatórios, registros de reuniões e documentos regulatórios, libera as equipes para aquilo que realmente importa: o relacionamento humano e a construção de confiança. A tecnologia não substitui esse vínculo, ela o fortalece”, ensina.

No agro, os efeitos são ainda mais visíveis no dia a dia do cooperado. “Costumo chamar de ‘agrônomo de bolso’”, diz Ben-Hur. “O produtor manda uma foto de uma praga pelo celular, a IA generativa analisa, cruza com dados climáticos e sugere a aplicação exata do defensivo. Isso reduz custos, evita desperdício e melhora a produtividade.”

Já Rafael Zarvos amplia essa perspectiva ao destacar o uso de simulações avançadas. “Com IA generativa, conseguimos modelar rotação de culturas, prever o comportamento do solo, simular agroflorestas e planejar safras com base em cenários climáticos locais. Isso empodera o agricultor, especialmente o pequeno produtor, e reduz a assimetria de informação no campo”, detalha.

Outro ponto de extrema importância é o setor da saúde cooperativa, onde o cuidado humano é insubstituível. Neste caso, a IA generativa aparece como suporte. “A ferramenta pode fazer a triagem inicial, organizar prontuários e automatizar notas clínicas. Isso poupa tempo do médico para aquilo que nenhuma máquina faz: acolher, escutar e cuidar”, destaca Ben-Hur.

“A presença humana nunca pode ser substituída em decisões que afetam a vida das pessoas”, Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria

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Zarvos concorda e faz um alerta: “A presença humana nunca pode ser substituída no cuidado. A IA generativa deve ser uma aliada. Quando usada com responsabilidade, ela devolve tempo e qualidade à relação entre profissional de saúde e paciente.”

No entanto, vale destacar que essa mesma lógica se aplica ao trabalho humano dentro das cooperativas. Mesmo que o avanço da IA generativa gere inquietações, os especialistas são unânimes em afirmar que o protagonismo humano não apenas permanece, como se torna ainda mais relevante. Ben-Hur Correia defende o conceito de liderança algorítmica. “A IA não vem para substituir o humano, mas para ser uma extensão da mente humana. O trabalho repetitivo, de processar dados e preencher planilhas, a máquina assume. O humano sobe um degrau e passa a focar em estratégia, empatia, negociação e visão sistêmica. Quem souber orquestrar a IA será o profissional mais valioso”, adianta.

A AI Fashion Architect Amanda Momente traduz essa ideia de forma simples. Para ela, a IA generativa está tirando das pessoas aquilo que ninguém gosta de fazer. “É como uma máquina de lavar roupas: ela não substitui você, mas te libera para fazer atividades mais importantes. Para manter o protagonismo humano, as cooperativas precisam ensinar o básico de tecnologia, mostrar como a IA funciona na prática e deixar claro que decisões importantes continuam nas mãos das pessoas”, diz.

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“Usar IA é como ter uma máquina de lavar: ela não substitui você, mas libera tempo para o que realmente importa”, Amanda Momente, AI Fashion Architect

Essa preparação passa pelo desenvolvimento de novas competências. Para Ben-Hur, a habilidade central do futuro não é técnica, mas cognitiva. “Chamo de fluência crítica em IA generativa. O profissional precisa saber formular o problema, fazer a pergunta certa, validar a resposta e julgar se aquele uso é ético e coerente com os valores da cooperativa. A IA alucina, inventa coisas. Por isso, o humano precisa ter repertório e senso crítico.”

Rafael Zarvos complementa afirmando que a adoção da IA generativa é também uma transformação cultural. “Mais do que aprender a usar uma ferramenta, cooperados e profissionais precisam entender o que é a IA generativa, como ela aprende e quais são seus limites. Isso é letramento digital em IA. Sem isso, não há autonomia, apenas dependência tecnológica.”

Governança como antídoto aos riscos da IA generativa

Diante dos riscos associados à IA generativa, a governança se impõe como ponto central. “A regra de ouro é manter o humano no comando”, afirma Ben-Hur. “Decisões críticas, que impactam diretamente a vida do cooperado, jamais podem ser totalmente automatizadas. A IA sugere; o humano decide.”

“A alfabetização em IA precisa ser permanente. Sem letramento, há dependência tecnológica, não autonomia.”Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria

Para Rafael Zarvos, esse equilíbrio passa pela criação de comitês participativos de IA, reunindo cooperados, gestores e especialistas. “Trabalhar com IA generativa não é apenas uma escolha técnica, mas uma decisão ética e política. As cooperativas têm todas as condições para liderar esse processo de forma justa e responsável”, observa.

Os desafios começam, muitas vezes, antes da tecnologia. “Não adianta ter a IA mais moderna se os dados estão bagunçados, em silos ou em papel. É o velho ditado: lixo entra, lixo sai”, lembra Ben-Hur. A escolha do modelo de implantação também exige estratégia. Para os três especialistas, o modelo híbrido tende a ser o mais adequado. “Use motores prontos e construa soluções próprias conectadas à sua base de dados segura. Isso traz potência com personalização”, resume Ben-Hur. Amanda Momente compara: “É como comprar uma roupa pronta e ajustar no alfaiate.”

Por fim, a inclusão digital surge como um compromisso inegociável. “A tecnologia pode ampliar desigualdades se não houver cuidado”, alerta Rafael Zarvos. “A alfabetização em IA generativa precisa ser permanente, acessível e pensada para todos os perfis de cooperados. Afinal, a ferramenta precisa estar a serviço das pessoas e da comunidade. Se for assim, o cooperativismo não apenas acompanhará essa transformação, mas poderá liderá-la”.

Fique por dentro: como as cooperativas podem usar a IA generativa com sucesso

  1. Comece pelos dados, não pela ferramenta: organize informações, integre sistemas e elimine silos. IA só funciona bem quando os dados estão estruturados, atualizados e confiáveis.
  2. Use a IA como tradutora, não como decisora: a IA generativa é poderosa para transformar relatórios técnicos em linguagem simples, ampliar a transparência e apoiar a participação democrática; decisões críticas devem continuar humanas.
  3. Aposte no modelo híbrido: use motores prontos de IA (como grandes plataformas globais), mas conectados a bases de dados próprias, seguras e alinhadas à realidade da cooperativa. Potência com identidade.
  4. Fortaleça a governança e a ética: crie comitês participativos de IA, com cooperados, gestores e especialistas. Defina claramente onde a IA pode atuar e onde não pode.
  5. Priorize inclusão digital: adote linguagem simples, recursos por voz, soluções acessíveis e capacitação contínua. A IA deve reduzir desigualdades, não as ampliar.
  6. Use a tecnologia para liberar tempo humano: automatize tarefas repetitivas e burocráticas para que pessoas foquem em relacionamento, estratégia, empatia e tomada de decisão.

Por Leticia Rio Branco

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Matéria exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop

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