Há histórias que, por razões desconhecidas ou não, mantêm-se distantes da memória de grande parte das pessoas, incluindo aquelas que descendem dos fatos. As Missões Jesuíticas Guarani é uma dessas histórias. No entanto, a partir do olhar de quem se volta para o passado com maior zelo, o exemplo de força coletiva na América do Sul é rememorado. Para o professor José Roberto de Oliveira*, referência no assunto, as Missões, como uma experiência marcada pela vida comunitária, têm muito a contribuir para os dias atuais.
Com a chegada dos jesuítas vindos da Europa e o início do processo europeu de cristianização dos indígenas no começo do século 17, chegaram às terras sulistas as escritas de Cristo, além de livros utópicos de autores como os filósofos Thomas Morus e Tommaso Campanella, os quais escreveram sobre um mundo cristão no qual tudo se fazia a muitas mãos. “Essa ideia chega com os jesuítas e ‘casa’ perfeitamente com o modelo vigente dos guaranis”, explica o pesquisador.
Conforme Oliveira, no mundo nativo da América, especialmente tratando-se dos guaranis, o auxílio mútuo entre os seres humanos era exercido naturalmente. “O modelo de vida guarani parte da colaboração. Isso estava presente na vida deles em todas as tarefas, incluindo a caça e o plantio”, afirma.
Diversos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros hoje são resultado da milenaridade dos guaranis, especialmente quando se trata da variedade de produtos derivados do milho, batata doce, mandioca e amendoim, além de frutas encontradas nas florestas. “O que chamamos hoje de chimarrão já era feito com a erva-mate utilizada pelos guaranis. As suas colheitas eram sempre feitas em mutirão”, destaca Oliveira.
Conforme Oliveira, há um grupo de processos histórico-culturais que precisam ser mais difundidos. Um exemplo é o dia 3 de maio de 1626, uma data fundamental para conhecer o Rio Grande do Sul, por ser um marco histórico da fundação das Missões, liderada pelo padre espanhol Roque Gonzales de Santa Cruz, e a fixação de 18 reduções jesuíticas. “Nestas comunidades, todos agiam a partir da ideia de um mundo organizado, no qual ensinava-se aos guaranis elementos como letras, números e profissões”, conta.
A partir de 1636, jesuítas e guaranis passaram a ser atacados violentamente pelos Bandeirantes, que vieram à procura de mão de obra escrava para São Paulo. Por conta disso, ocorreu uma grande fuga para o território espanhol onde hoje é a Argentina, o que resultou na cultura gaúcha ao redor do gado, tropeirismo, estâncias e charqueadas. “É o que os guaranis chamam de ñandereko, o modo de ser do gaúcho”, cita o professor. Outro ponto a ser destacado é a segunda fase missioneira, com os Sete Povos das Missões e a industrialização, além da história de Sepé Tiaraju, considerado um herói guarani missioneiro rio-grandense.
Oliveira realiza palestras sobre as Missões Jesuíticas Guarani em escolas para alunos do ensino médio em diferentes lugares do Brasil e do mundo. Para o professor, aproximar os jovens da cultura guarani e seus valores vai ao encontro da necessidade de lembrá-los, especialmente àqueles que possuem descendência indígena, seja ela guarani, tupi ou as demais, que essa história segue viva na genética.
“Há 10 mil anos havia gente na região do Vale do Paranhana (RS), por exemplo. Até hoje, muitas pessoas não conhecem qual é a sua origem. Sabermos de onde viemos, ou seja, compreender-se, é de grande importância. No Rio Grande do Sul, possuímos muitos aspectos das Missões e não sabemos disto. Os estudantes precisam se conhecer e saber que seus descendentes fizeram parte de uma importante história. Isso precisa chegar aos nossos jovens”, enfatiza Oliveira.
Para o educador, a história das Missões e da cultura guarani têm muito a nos ensinar sobre vivermos de forma coletiva, uma vez que a experiência conseguiu unir o modo fraterno dos guaranis com o esplendor do Cristianismo, baseado em “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). “Dessa união, tem-se um modelo importante de organização coletiva que faz parte do estado gaúcho. Conhecer essas milenaridades torna possível que esta ideia reverbere aos dias atuais, nos quais as pessoas saibam sua história, compreendam a importância deste processo e, assim, passem a amar mais uns aos outros”, enaltece Oliveira.
Para o historiador e escritor Rodrigo Trespach, sem dúvida, o exemplo das Missões Jesuíticas serve de exemplo prático da importância de uma vida comunitária e pode ser classificado como um “pré-cooperativismo”. “É importante ressaltar, porém, que o modelo social usado não era uma novidade nas sociedades humanas. O homem pré-histórico já caçava ou trabalhava a terra a partir da colaboração mútua. O cooperativismo como o conhecemos hoje, no entanto, é uma doutrina. Está pautado em princípios universais e regramentos que surgem somente em meados do século 19. A adesão voluntária, o controle democrático, a autonomia e a individualidade são diferenciais importantes dentro deste contexto”, observa.
Como um exemplo de esforço à preservação de fatos históricos no Rio Grande do Sul, o Memorial Anneken, um projeto da Sicredi Caminho das Águas**, localizado no município de Rolante, demonstra que o cooperativismo é um elemento fundamental da formação dos povos e do desenvolvimento da sociedade da região como um modelo de gestão social e econômica, especialmente para colonos e pequenos negócios. “Nossa gente precisa do cooperativismo, diferentemente de outros locais. A Sicredi Caminho das Águas mostra muito bem este processo histórico-cultural. Parabenizo-a pela iniciativa de criar o Memorial Anneken, que possui excelente qualidade, inclusive historiográfica. É um local que precisa ser conhecido não apenas pelos gaúchos, mas pelo Brasil”, conclui Oliveira.
*José Roberto de Oliveira é natural de Santo Ângelo (RS), engenheiro de formação, na área da Topografia e Cartografia. Atuou por longo tempo como docente na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). Foi diretor de desenvolvimento do Turismo no Rio Grande do Sul; foi um dos fundadores do Ministério do Turismo; foi vice-prefeito de São Miguel das Missões – Patrimônio Cultural da Humanidade; criador em 2012, junto com os jesuítas, mais argentinos e paraguaios, da “Nação Missioneira”; foi criador do Circuito Internacional Missões Jesuíticas e representante brasileiro no Mercosul.
**Constituída em 1923, a Sicredi Caminho das Águas integra o Sistema Sicredi – composto por mais de 100 cooperativas em todo o Brasil. A instituição oferece um portfólio completo com mais de 300 soluções financeiras para liberar o potencial de pessoas e negócios. Com sede em Rolante (RS), reúne 100 mil associados em uma área de atuação que abrange 33 municípios do Vale do Paranhana, Vale do Sinos e do Litoral Norte gaúcho, como Igrejinha, Sapiranga, Taquara, Capão da Canoa, Torres, Osório, Tramandaí, entre outros.

