6 mil novos cooperados por dia. O que estamos ensinando a eles? – Vera Caser é Instrutora da Ocemg e do Sescoop

Escrito em 06/09/2026
MundoCoop

O crescimento do cooperativismo brasileiro é motivo de celebração. O número de associados passou de 15,5 milhões em 2019 para 29 milhões em 2025. Isso significa uma média de 6,1 mil pessoas ingressando diariamente em uma cooperativa.

É um avanço significativo, mas a dimensão desses números traz ao debate uma questão que considero muito relevante. Durante a apresentação da primeira pesquisa nacional sobre maturidade da cultura cooperativista, na Semana de Competitividade 2026, encerrada nesta quinta-feira (13), Fabíola Nader Motta, superintendente do Sistema OCB, perguntou se essas pessoas sabem que são cooperadas, se conhecem seus direitos, deveres, responsabilidades e o papel que exercem.

9.761 pessoas foram ouvidas e contribuíram para a OCB encontrar indicadores bastante positivos sobre a relação dos associados com suas cooperativas. Entre os entrevistados, 89% pretendem manter uma relação de longo prazo, e o mesmo percentual recomendaria sua cooperativa a amigos ou familiares. Outros 87% afirmam manter a fidelidade mesmo em períodos de crise.

Quando se observa a participação, entretanto, aparecem dificuldades que fazem acender o sinal amarelo. A participação ativa nas assembleias apresentou o menor índice entre os itens avaliados. A falta de tempo foi apontada por 36% dos cooperados e 22% disseram não ter informação suficiente sobre como participar. Consideradas em conjunto, as barreiras relacionadas à informação e ao conhecimento foram mencionadas por três em cada dez cooperados. No ramo Crédito, chegam a 43%.

Esse último dado me interessa particularmente porque situa a comunicação e a cultura cooperativista em uma discussão de governança. Se o cooperado não entende como participar, melhorar a divulgação da assembleia resolve apenas uma pequena parte do problema.

É preciso observar todo o caminho que antecede aquele momento: quanto essa pessoa conhece sobre a cooperativa, quantas vezes é incentivada a fazer parte de atividades realizadas pela instituição ao longo do ano, que demonstrações recebe cotidianamente que a ajudam a se sentir parte, como chegam as informações, se compreende a linguagem utilizada, se entende por que sua participação importa e se consegue relacionar as decisões que estão sendo tomadas com a sua própria condição de cooperada.

Trabalho há muitos anos com comunicação no cooperativismo e encontro com frequência uma confusão entre disponibilizar informação e propaganda e produzir compreensão, conexão. Uma cooperativa pode comunicar bastante e, ainda assim, explicar pouco, ouvir pouco e não fortalecer vínculos.

A mensagem pode estar correta, mas ter sido escrita, em uma linguagem técnica, descontextualizada da realidade de quem a recebe. A apresentação da liderança pode conter muitas informações necessárias, mas pressupor conhecimentos que parte das pessoas não possui. Um colaborador pode conhecer muito bem os produtos e prestar um ótimo atendimento, mas não conseguir explicar ao cooperado o que diferencia aquela relação da que ele teria com uma empresa convencional.

Aumentar o volume de comunicação não resolve esses problemas. É necessário trabalhar a capacidade de traduzir o modelo cooperativista para as situações concretas da relação com as pessoas.

A cooperativa também educa fora dos programas de educação cooperativista

Há um aspecto dessa discussão que considero pouco explorado. A formação do cooperado não acontece somente nos programas formais de educação cooperativista ou na integração realizada no momento de sua entrada. A compreensão sobre o que é uma cooperativa vai sendo construída durante toda a relação, ou seja, a sua jornada com a instituição.

O atendimento, a assembleia, o aplicativo, a conversa pelo WhatsApp, a apresentação de um produto, a solução de um problema, a maneira como a cooperativa comunica seus resultados e a forma como recebe uma reclamação também ajudam o associado a compreender que organização é aquela e qual é o lugar que ele ocupa nela.

Por isso, além de perguntar se estamos educando nossos cooperados, deveríamos observar o que nossas práticas cotidianas estão ensinando a eles.

Se durante anos uma cooperativa se comunica predominantemente sobre taxas, produtos, campanhas, vantagens comerciais e condições de contratação, é bastante compreensível que o cooperado passe a avaliá-la principalmente por esses critérios. A relação que ele estabelece com a organização também é resultado do posicionamento da cooperativa.

Isso fica particularmente evidente no cooperativismo de crédito. Uma pessoa pode utilizar conta, cartão, crédito, investimentos e aplicativo durante dez anos e continuar se relacionando com sua cooperativa de maneira muito semelhante àquela que mantém com qualquer instituição financeira.

É possível, inclusive, que tenha recebido uma boa explicação sobre cooperativismo no momento da admissão. O problema é o que aconteceu nos anos seguintes. Se quase todas as interações posteriores estiveram concentradas na dimensão financeira e comercial da relação, aquela primeira explicação terá pouca força para sustentar, sozinha, uma identidade cooperativista.

O dado dos 18% precisa ser observado nesse contexto

A pesquisa mostra outro número que ganha relevância quando colocado ao lado dos 6,1 mil novos cooperados que chegam diariamente ao sistema. Apenas 18% das cooperativas participantes da consulta realizada durante a Semana de Competitividade disseram ter um programa estruturado e contínuo de integração de novos cooperados.

A entrada é um momento essencial para começar a construir a compreensão sobre o modelo, mas integração não deveria significar simplesmente uma apresentação institucional acompanhada de informações sobre produtos, serviços, estatuto e princípios cooperativistas.

Quem ingressa precisa entender questões bastante concretas: o que muda para mim por ter entrado em uma cooperativa? Onde posso participar? Quais decisões posso influenciar? O que se espera de mim? Por que existem determinadas regras? Como os resultados da cooperativa se relacionam comigo e com a comunidade?

Há ainda outro cuidado importante. As pessoas chegam às cooperativas com trajetórias muito diferentes. Aquilo que parece elementar para quem trabalha há vinte anos no cooperativismo pode ser completamente desconhecido para alguém que acabou de ingressar. A comunicação precisa partir dessa realidade, e não do conhecimento acumulado por quem está dentro da organização há muito tempo.

É nesse espaço que comunicação e educação cooperativista precisam atuar de maneira muito próxima. A educação oferece conhecimento sobre o modelo e a comunicação ajuda a tornar esse conhecimento compreensível, relevante e presente nas diferentes situações da relação.

A pesquisa também fala muito sobre os colaboradores

Educação, formação e informação foi o princípio apontado como prioritário por 58% dos cooperados, 57% dos dirigentes e 71% dos empregados. O percentual mais elevado está entre aqueles que, em grande parte das cooperativas, mantêm contato cotidiano com o cooperado.

Esse resultado merece atenção porque o colaborador ocupa uma posição decisiva na construção da cultura. É ele quem explica uma regra, apresenta uma solução, conduz uma negociação, recebe uma insatisfação, responde a uma dúvida e conversa sobre produtos e serviços. Em muitos desses momentos, a percepção do cooperado sobre a cooperativa será formada muito mais por essa relação do que por qualquer campanha institucional.

Por isso tenho insistido na necessidade de a formação interna ir além do conhecimento conceitual dos princípios cooperativistas. Quem trabalha em uma cooperativa precisa compreender o que esses princípios significam para o trabalho que realiza e ser capaz de reconhecer suas implicações no atendimento, na comunicação, na liderança, nas decisões e na relação com o cooperado.

Essa é uma das questões que estamos trabalhando no Programa Agentes de Cultura, do Sicredi Expansão, do qual participo na formação dos colaboradores que se imbuíram do propósito de fortalecer o Jeito Sicredi de Ser. A discussão sobre cultura chega às situações concretas da rotina, à linguagem utilizada com o cooperado, à maneira de apresentar uma solução e à capacidade das pessoas de reconhecer situações em que a identidade cooperativista precisa prevalecer.

A comunicação ajuda a formar a percepção sobre o que é uma cooperativa

Durante a apresentação da pesquisa, Fabíola sintetizou uma parte do diagnóstico dizendo que “quem conhece, gosta”, que a barreira é a comunicação e o caminho é a educação cooperativista.

A afirmação abre uma discussão que considero fundamental: precisamos examinar com mais profundidade que comunicação estamos fazendo.

Comunicação cooperativista não pode ser reduzida ao aumento da quantidade de conteúdos sobre cooperativismo. Seu papel é ajudar as pessoas a compreender o significado desse modelo nas situações que vivem e nas relações que estabelecem com a organização.

Quando falamos em participação democrática sem explicar onde, como e em quais decisões o cooperado pode participar, o princípio permanece distante da sua experiência. Se mencionarmos o interesse pela comunidade sem relacioná-lo às escolhas, aos investimentos e aos resultados da cooperativa, o conceito corre o risco de permanecer apenas no discurso institucional. E ao abordarmos pertencimento sem tornar claros os direitos, as responsabilidades e as possibilidades reais de influência do cooperado, é difícil esperar que essa ideia adquira significado concreto.

Existe ainda uma questão especialmente importante para cooperativas que cresceram e se profissionalizaram. Quanto maior e mais complexa se torna a organização, maior pode ser a distância entre a linguagem de quem trabalha dentro dela e a compreensão de quem se relaciona com ela.

A profissionalização é necessária, assim como o crescimento é desejável. Mas ambos precisam ser acompanhados pela capacidade de continuar explicando o que é essa organização, por que ela existe, o que a diferencia, qual é o papel do cooperado e que tipo de relação pretende construir com ele.

O crescimento gera responsabilidade proporcional

A pesquisa apresentada pela OCB tem grande importância porque oferece dados nacionais para uma discussão que, durante muito tempo, foi conduzida principalmente a partir das percepções de cada cooperativa.

Os resultados mostram uma base de cooperados com indicadores elevados de vínculo, fidelidade e disposição para manter a relação. Ao mesmo tempo, revelam dificuldades de participação, barreiras relacionadas à informação e ao conhecimento e uma integração ainda pouco estruturada para receber milhares de pessoas que chegam diariamente ao sistema.

Esse cenário torna o trabalho com cultura cooperativista ainda mais importante. O desafio está em criar condições para que a identidade cooperativista acompanhe o crescimento e continue sendo compreendida à medida que as organizações se tornam maiores, mais profissionais e mais complexas.

Educação cooperativista, liderança, comunicação, governança e experiência do cooperado fazem parte desse mesmo desafio e precisam conversar muito mais entre si.

Chegar a 29 milhões de cooperados é uma conquista enorme para o cooperativismo brasileiro. Fazer com que essas pessoas compreendam o que significa ser cooperado, reconheçam sua participação nesse modelo e consigam perceber essa diferença nas relações cotidianas é parte indispensável do crescimento que ainda temos pela frente.


Vera Caser é Instrutora da Ocemg e do Sescoop

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