Tecnologia, crédito e governança passam a definir o próximo ciclo do agro brasileiro

Escrito em 02/10/2026
MundoCoop

O primeiro dia do GAFFFF 2026 colocou em pauta alguns dos principais desafios que devem orientar o próximo ciclo do agronegócio brasileiro. Crédito, tecnologia, segurança alimentar, competitividade, sustentabilidade e organização produtiva apareceram de forma recorrente nos debates realizados na última quinta-feira (1º), em São Paulo.

A MundoCoop acompanhou de perto as discussões da abertura do festival e reuniu alguns dos principais pontos apresentados por lideranças, especialistas e representantes do setor produtivo. Entre eles, ganhou força a percepção de que o próximo salto do agro dependerá da capacidade de transformar escala em eficiência, ampliar o acesso a capital e tecnologia e responder a novas exigências ambientais e comerciais.

Realizado no Nubank Parque, o Global Agribusiness Festival reúne representantes de diferentes elos da cadeia para discutir os movimentos que devem influenciar o setor nos próximos anos. A programação de 2026 conta com mais de 100 palestrantes distribuídos em seis palcos e combina debates técnicos com negócios, cultura e outras experiências relacionadas ao agro.

Crédito no campo

Em um ambiente marcado por juros elevados, aumento da inadimplência e maior necessidade de capital de giro, o financiamento da produção ocupou espaço relevante nas discussões. Um dos painéis sobre distribuição de insumos mostrou como a análise de risco, a capacidade de pagamento e a integração entre as áreas comercial e financeira passaram a ter peso maior na sustentabilidade das operações.

O movimento acompanha uma transformação mais ampla. Distribuidores deixam de atuar apenas na comercialização de insumos e ampliam sua presença em crédito, serviços e assistência ao produtor. Ao mesmo tempo, bancos, fintechs, tradings e cooperativas avançam na relação direta com quem produz, aumentando a importância do conhecimento da propriedade e das particularidades de cada atividade.

A relação entre financiamento e produção também apareceu nos debates sobre segurança alimentar. Representantes de instituições financeiras e organismos internacionais destacaram que ampliar a oferta de alimentos depende de uma combinação entre crédito, seguro, assistência técnica, infraestrutura e acesso a mercados. Para os pequenos produtores, esses instrumentos ganham importância ainda maior diante das dificuldades para alcançar escala e absorver riscos.

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, relacionou justamente essa limitação ao papel das cooperativas. Ao discutir a realidade dos produtores menores, defendeu que organização coletiva, acesso a recursos e assistência podem ampliar sua capacidade de permanecer na atividade e chegar ao mercado.

Cooperativas em diferentes escalas

O cooperativismo ganhou uma discussão própria no painel “Cooperativismo Agroindustrial: Estratégias para um Agro Forte”, mediado por João José Prieto, gerente Técnico e Econômico do Sistema OCB. O encontro reuniu Fernando Degobbi, presidente executivo da Coopercitrus, e Marcos Farhat, diretor-presidente da Coplacana, para analisar as transformações que atingem as cooperativas agroindustriais. A programação abordou sustentabilidade, clima e estratégias para o desenvolvimento do setor.

A discussão também abriu espaço para um desafio que atravessa diferentes perfis de propriedade. Pequenos, médios e grandes produtores operam com níveis distintos de acesso a capital, tecnologia, infraestrutura e mercados, o que exige das cooperativas capacidade para atender realidades bastante diferentes. Nesse cenário, governança e profissionalização ganham importância não apenas na administração das organizações, como também na capacidade de sustentar investimentos e acompanhar as transformações das cadeias produtivas.

Os números ajudam a dimensionar essa atuação. O cooperativismo agropecuário reúne atualmente 1.254 cooperativas e 1,13 milhão de cooperados, além de 277 mil empregos diretos. Em 2025, o ramo registrou R$ 487,3 bilhões em ingressos, o equivalente a 57,4% de toda a movimentação econômica do cooperativismo brasileiro.

A presença do modelo no GAFFFF também aproximou o debate sobre a escala das discussões realizadas nos demais palcos. Ao organizar produtores, compartilhar estruturas e aproximar assistência, mercados e diferentes soluções de negócio, as cooperativas aparecem como uma das formas de conectar a transformação do agro a propriedades que avançam em ritmos distintos.

Relação tecnologia x resultado

A inovação ocupou outra frente importante da abertura. Diferentes painéis mostraram que a discussão já não se concentra apenas na quantidade de tecnologias disponíveis, mas na capacidade de transformá-las em decisões melhores dentro da propriedade.

Agricultura de precisão, telemetria, visão computacional e inteligência artificial apareceram associadas à redução de custos, aumento de produtividade e melhor utilização dos ativos. Na SLC Agrícola, por exemplo, foi apresentado que cada R$ 1 aplicado em determinadas ferramentas tecnológicas gera R$ 12,50 de retorno. O avanço das soluções também vem acompanhado de uma mudança geracional, com produtores mais jovens cobrando ferramentas simples e resultados mais claros.

A quantidade crescente de informações disponíveis cria, ao mesmo tempo, outro desafio: transformar dados em conhecimento aplicável. Nos debates sobre inteligência artificial, especialistas reforçaram que coletar informações não é suficiente. Empresas e produtores precisam organizar bases, compreender o negócio e utilizar a tecnologia para direcionar decisões práticas.

Novas exigências do mercado global

Se dentro da porteira a pressão está sobre eficiência, fora dela a competitividade brasileira passa cada vez mais por geopolítica, rastreabilidade e capacidade de atender novos padrões internacionais. Os debates do primeiro dia mostraram um comércio agrícola em que questões ambientais, sanitárias e estratégicas passam a interferir diretamente no acesso aos mercados.

No mercado de grãos, rastreabilidade e sustentabilidade foram apresentadas como exigências crescentes dos compradores internacionais. O desafio está em incorporar esses padrões sem retirar competitividade do produtor, especialmente quando os custos adicionais nem sempre são remunerados pelo mercado.

A agregação de valor também entrou nessa equação. A expansão da agroindustrialização, do etanol de milho, de proteínas, rações e outros produtos derivados mostra uma cadeia que busca ampliar receitas sem depender exclusivamente do crescimento das commodities. Nesse processo, integração de dados e inteligência artificial também podem apoiar decisões logísticas e industriais e aproximar a produção das demandas dos mercados compradores.

Atenção climática

As mudanças climáticas completaram o conjunto de questões que atravessaram o primeiro dia Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, chamou atenção para os riscos de cadeias alimentares excessivamente dependentes de longas rotas comerciais e para a necessidade de ampliar a capacidade de adaptação dos sistemas produtivos.

A discussão reforçou uma mudança que apareceu também em outros painéis: sustentabilidade deixa de ocupar uma agenda paralela e passa a interferir em financiamento, seguro, acesso a mercados e planejamento produtivo. Robinson também relacionou a transição a uma participação maior das novas gerações e das mulheres, em um ano declarado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional da Mulher Agricultora.


Por João Victor Rezende – Redação MundoCoop

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