O preço das apostas online na economia brasileira

Escrito em 21/09/2026
MundoCoop

A chance de multiplicar um pequeno valor em segundos, a qualquer momento, na palma da mão. Essa é a atividade que, repetida milhões de vezes por dia em todo o país, passou a fazer parte do cotidiano financeiro dos brasileiros. Bares, estádios, redes sociais, aplicativos de mensagem e até conversas de trabalho já carregam menções as bets, um mercado que cresceu de forma acelerada e que hoje disputa espaço com contas básicas, poupança e planos de aposentadoria no orçamento das famílias.

Os números ajudam a dimensionar esse avanço. Segundo pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a parcela da população que faz algum tipo de aposta saltou de 14%, em 2023, para 17%, em 2025. Entre os mais jovens, o fenômeno é ainda mais expressivo, alcançando 27% da geração Z e 22% dos millennials. O setor já é considerado o quinto maior mercado de apostas do mundo, com receita bruta das empresas reguladas de R$ 37 bilhões em 2025.

Bruno Ribeiro, especialista em investimentos da Quanta Previdência

O cérebro treinado para o agora

Para o especialista em investimentos da Quanta Previdência, Bruno Ribeiro, essa atração tem explicação. “Existe um conceito em economia comportamental chamado desconto hiperbólico (tendemos a superestimar recompensas imediatas e subestimar recompensas futuras, mesmo quando o cálculo racional favorece esperar). As plataformas de apostas exploram justamente essa distorção, entregando resultado em segundos”, explica Bruno Ribeiro.

No cenário nacional, essa questão é especialmente complexa. “No Brasil, esse terreno é ainda mais fértil por fatores estruturais, com boa parcela da população fora do sistema bancário tradicional até poucos anos atrás e um cenário econômico historicamente marcado por instabilidade, o que acaba reduzindo a crença de que poupar aos poucos realmente compensa”, acrescenta o especialista, que também cita a desigualdade no acesso à educação financeira desde a base como fator que amplia a vulnerabilidade justamente entre quem tem menos margem para absorver perdas.

O impacto, segundo ele, vai além do prejuízo pontual e chega a alterar o próprio funcionamento da expectativa de recompensa. “Quando o cérebro se acostuma a ciclos dopaminérgicos de recompensa em segundos, o hábito de esperar meses ou anos por um resultado financeiro passa a exigir um esforço de autocontrole maior do que exigiria antes”, afirma Bruno.

Para Eduardo Trigueiro, educador financeiro do Sicoob, o avanço das bets revela algo que ultrapassa a simples gestão de orçamento. “É fundamental diferenciar aposta de investimento; apostar pode ser uma forma de entretenimento, mas não deve ser tratada como estratégia para melhorar a vida financeira.“

Eduardo Trigueiro, educador financeiro do Sicoob

Dinheiro que sai da economia real

O deslocamento de recursos para as apostas também produz efeitos mensuráveis sobre a economia como um todo. “Algumas divulgações recentes do Banco Central apontaram perdas financeiras das famílias da ordem de R$ 62 bilhões em um ano e meio, o equivalente a cerca de 0,68% da renda disponível das famílias no período, com as plataformas movimentando quase R$ 351 bilhões via Pix nesse mesmo intervalo”, relata Bruno Ribeiro.

Estudo mais recente, apresentado em abril de 2026 pela Confederação Nacional do Comercio (CNC) com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, reforça esse cenário. Os gastos com apostas saltaram de valores próximos de zero, em janeiro de 2023, para mais de R$ 30 bilhões mensais, alta superior a 500% em três anos, período em que a inadimplência associada ao setor teria retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista. 

Para Eduardo, o principal risco está no custo de oportunidade dessa renda. “O dinheiro direcionado às apostas pode deixar de ser utilizado no consumo, na formação de reservas, no pagamento de dívidas ou na construção de patrimônio. Quando isso acontece em grande escala, deixa de ser apenas uma decisão individual e pode produzir efeitos sobre o comércio, os serviços e a própria saúde financeira das famílias”, avalia.

O padrão de risco também varia conforme a renda. Segundo especialista da Quanta Previdência, famílias com o orçamento apertado tendem a enxergar as apostas como via de escape diante de perdas anteriores, comportamento associado à teoria da perspectiva. “Nas classes média e alta, o dano segue outro caminho, mas não menos relevante. Ali, o mecanismo predominante costuma ser a escalada de compromisso, combinada à ilusão de controle, em que a pessoa continua apostando para tentar recuperar perdas anteriores ou reforçar a crença de que domina o jogo por meio de estratégia”, descreve Bruno. 

Instituições financeiras diante de um novo desafio

Se o problema nasce no cruzamento entre neurociência e tecnologia, a resposta, segundo os dois especialistas, também precisa envolver quem lida diretamente com o dinheiro das famílias. 

Bruno Ribeiro descreve os mecanismos usados pelas plataformas para prender a atenção do usuário. ”A associação massiva com o esporte mais popular do Brasil sequestra uma emoção coletiva legítima e a converte em gatilho financeiro. O design de interface, com cores e animações associadas a ganho e urgência, mantém a atenção em estado de alerta constante”, afirma.

Diante desse cenário, ele defende que ensinar sobre orçamento e dívida deixou de ser suficiente. “É necessário que os agentes do mercado financeiro apliquem esses mesmos princípios de reforço a favor do comportamento poupador, tornando a evolução do patrimônio visível e recorrente, aproximando a comunicação e oferecendo planejamento individualizado”, sugere o especialista, que cita experiências internacionais como referência. “Países como Reino Unido e Austrália tratam o tema como questão de saúde pública, priorizando regulação estrutural em vez de restrições apenas publicitárias.”

No Brasil, ele defende que essa responsabilidade não recaia apenas sobre o Estado. “Cabe também às instituições de mercado, sobretudo entidades de previdência, cooperativas de crédito e instituições financeiras, assumir esse espaço por meio de educação continuada, não como ação pontual de comunicação institucional, mas como compromisso permanente de conscientização”, defende Bruno Ribeiro.

Eduardo Trigueiro detalha como essa atuação pode acontecer na prática dentro de uma cooperativa de crédito. “O papel pode estar em transformar informações em ações educativas, alertas e instrumentos de planejamento que ajudem o cooperado a refletir e agir”, explica. “O limite é importante; não se trata de vigiar ou controlar comportamentos, mas de fortalecer a autonomia. Uma boa educação financeira não decide pelo indivíduo, ela o prepara para decidir melhor”, completa.

Questionado sobre a prioridade das instituições financeiras daqui para frente, o educador é direto. “A prioridade deve ser fortalecer a saúde financeira das pessoas, com uma atuação cada vez mais preventiva e educativa. Se as bets passaram a disputar espaço no orçamento das famílias, não basta agir apenas quando o endividamento ou a inadimplência já ocorreram”, conclui. 

O avanço das apostas online no Brasil já não pode ser tratado apenas como escolha individual de lazer, e sim como um fator que pressiona a formação de poupança, a previdência e a preparação de uma geração inteira para o envelhecimento populacional que o país já enfrenta. Sem regulação responsável, proteção ao consumidor e educação financeira contínua, o risco é que a economia da dependência continue crescendo mais rápido do que a capacidade das famílias brasileiras de proteger seu próprio futuro.


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 134 da Revista MundoCoop

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