O agronegócio brasileiro vive um de seus momentos mais robustos e, cada vez mais, as cooperativas estão no centro dessa engrenagem. Não apenas como coadjuvantes, mas como protagonistas de um modelo que combina eficiência produtiva, inclusão econômica e visão de longo prazo. Esse avanço também se traduz em escala e capacidade de investimento: segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, o cooperativismo agropecuário brasileiro movimenta cerca de R$438 bilhões por ano, reunindo mais de 1 milhão de produtores rurais organizados em aproximadamente 1,1 mil cooperativas, responsáveis por uma fatia expressiva da produção nacional. Dentro desse universo, grandes cooperativas já somam mais de R$150 bilhões em faturamento e vêm ampliando sua atuação com aquisições estratégicas, avançando sobre setores em dificuldade e consolidando ainda mais sua presença no mercado, conforme levantamento do AgFeed.
Hoje, nomes como Coamo, Aurora Coop e Coopavel figuram entre as maiores organizações do setor, estampando rankings, relatórios internacionais e até publicações em revistas como a Forbes. Mais do que números, esse avanço reflete uma transformação estrutural: o cooperativismo passou a ser um dos pilares do agro nacional.
Para o presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, esse crescimento não é casual. “São vários fatores que explicam esse avanço: visão de futuro, capacidade gerencial, atualização tecnológica e investimentos permanentes. As cooperativas compreenderam seu papel estratégico e passaram a atuar com planejamento e escala.”
“As cooperativas deixaram de ser alternativas e se consolidaram como um dos pilares do agro brasileiro” – Neivor Canton, presidente da Aurora Coop
Na mesma linha, o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, reforça a essência do modelo. “Somos uma grande família com mais de 140 mil integrantes entre cooperados, funcionários e dependentes. A Coamo não foi feita para uma geração, mas para a vida toda. Assim, com objetivos comuns, trabalhamos para proporcionar benefícios duradouros aos cooperados, com forte investimento técnico, social e educacional”, detalha.
Esse avanço, segundo o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, está diretamente ligado à profissionalização e à essência do modelo. “As cooperativas contam com gestão qualificada e têm responsabilidade com os produtores, que são o seu alicerce. É um modelo que une desempenho econômico com compromisso social, transparência e participação dos associados.”
Panorama: um modelo que ganhou escala
O crescimento das cooperativas acompanha e, em muitos casos, impulsiona a expansão do agronegócio brasileiro, setor que já responde por cerca de 25% do PIB nacional. Com forte presença no Sul e avanço consistente em outras regiões, essas organizações passaram a ocupar uma posição estratégica dentro dessa engrenagem, respondendo por uma parcela expressiva da produção nacional, além de combinar escala produtiva com inclusão econômica.
Na Coamo, maior cooperativa agroindustrial da América Latina, os números ajudam a dimensionar essa relevância: são mais de 32 mil cooperados, atuação em três estados, 124 unidades operacionais e uma receita anual de R$28,7 bilhões. Apenas em 2025, a cooperativa recebeu 9,6 milhões de toneladas de grãos — o equivalente a 2,7% da produção brasileira — e exportou 3,8 milhões de toneladas, gerando US$1,47 bilhão em faturamento externo.
Para o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, o diferencial está na essência do modelo cooperativista. “O que mais se plantou nas nossas cooperativas não está na terra, mas no coração do agricultor. Com a união, construímos uma organização sólida e relevante.”
“Somos uma grande família organizada como empresa, mas guiada pela filosofia do cooperativismo e pelo bem comum” – Airton Galinari, presidente executivo da Coamo
Essa base coletiva permite algo que poucos modelos conseguem: crescer em escala sem excluir. Pequenos e médios produtores, a maioria no campo brasileiro, encontram nas cooperativas acesso à tecnologia, mercado e renda, reduzindo desigualdades estruturais do setor.
Na avaliação do presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, esse é um dos pilares do sucesso. “Os pequenos e médios produtores são a maioria do agro brasileiro. Nesse ponto, a profissionalização das cooperativas é uma grande diferença em relação a outras empresas do agronegócio. Contamos com equipes qualificadas que atuam desde a orientação técnica até o aumento da produtividade.”
Esse avanço também se reflete na escala da própria Coopavel, que se consolidou como uma das principais cooperativas do país, com forte atuação no Paraná. Um dos maiores símbolos desse protagonismo é o Show Rural Coopavel, considerado um dos principais eventos da agropecuária da América Latina. Para o presidente da cooperativa, Dilvo Grolli, esse papel vai além da produção. “As inovações e tecnologias fazem parte do cooperativismo. Temos a responsabilidade de compartilhar esse conhecimento com os produtores rurais, buscando um crescimento completo e sustentável.”
Já na Aurora Coop, o crescimento está diretamente ligado à eficiência produtiva e à agregação de valor. A cooperativa reúne mais de 14 cooperativas filiadas, industrializa proteínas e lácteos e produz mais de 850 itens, presentes em 77% dos lares brasileiros e exportados para mais de 80 países.
Segundo o presidente Neivor Canton, a capacidade de integrar toda a cadeira produtiva foi a visão estratégica que levou as cooperativas a deixarem de ser apenas fornecedoras de matéria-prima para assumir protagonismo na indústria de alimentos. “Esse movimento foi fundamental para ampliar mercados, fortalecer a competitividade e garantir crescimento sustentável no longo prazo.”
O que move o setor: tecnologia, gestão e valor agregado
Se antes as cooperativas estavam concentradas na recepção e comercialização de grãos, hoje operam em toda a cadeia produtiva, do fornecimento de insumos à industrialização, passando pela logística, exportação e presença no varejo. Esse salto de escala e complexidade é sustentado por três pilares centrais: gestão profissionalizada, inovação tecnológica e verticalização da produção.
Na Coamo, esse modelo se traduz em números expressivos. Cerca de 45% da soja recebida é industrializada, ampliando significativamente o valor agregado e o retorno ao cooperado. Com mais de 50 anos de trajetória industrial, a cooperativa construiu um parque com 13 unidades industriais, atuando na produção de óleo de soja, café, margarina, gordura vegetal, ração, biodiesel e etanol, além de operações logísticas integradas que conectam o campo ao mercado internacional.
Para o presidente executivo Airton Galinari, esse avanço é fruto de uma estratégia contínua de investimento e planejamento. “Não se trata apenas de ser grande, mas de ser relevante nos negócios que fazemos. A verticalização é o caminho para agregar valor à produção e garantir melhores resultados aos cooperados.”
Na Aurora Coop, a lógica é semelhante, mas com forte foco na proteína animal e alimentos processados. A cooperativa industrializa grãos, aves, suínos e leite, gerando mais de 850 produtos, presentes em 77% dos lares brasileiros e exportados para mais de 80 países. “As cooperativas compreenderam que precisavam ir além da matéria-prima e avançar na industrialização para entregar produtos finais de qualidade ao consumidor”, diz o presidente Neivor Canton, cuja transformação do modelo foi determinante para conquistar esse posicionamento.
Ele reforça que essa estratégia ampliou a competitividade internacional. “A agregação de valor, aliada à eficiência produtiva e à capacidade de entender os mercados, é o que permite às cooperativas crescerem de forma sustentável e disputarem espaço no cenário global.”
Outro vetor decisivo é a tecnologia. A adoção de soluções como agricultura de precisão, automação, biotecnologia e ferramentas digitais têm elevado os níveis de produtividade e eficiência no campo, reduzindo custos e aumentando a competitividade. “O crescimento do cooperativismo passa pelo acesso à tecnologia e pela orientação técnica, permitindo que o produtor esteja alinhado às exigências do mercado e preparado para os desafios do futuro”, explica o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli
Crédito rural: o combustível do agro
Nenhum crescimento no agronegócio seria possível sem acesso a financiamento, e, nesse cenário, o cooperativismo de crédito vem se consolidando como um dos principais pilares de sustentação do setor.
Para o diretor do Sicoob, Francisco Reposse Jr., o diferencial do modelo está na proximidade e no conhecimento profundo da realidade do produtor. “O crédito é o combustível do agro. E a grande contribuição das cooperativas está na capilaridade e na proximidade. O gerente não conhece o produtor apenas por um número, ele conhece a família, a propriedade e o histórico da lavoura.”
Segundo ele, essa relação transforma a lógica tradicional do sistema financeiro. “Não apenas entregamos o recurso, participamos do projeto do produtor. Criamos um ciclo virtuoso em que o sucesso dele é também o sucesso da cooperativa e da comunidade.”
Esse modelo tem impacto direto na inclusão financeira, especialmente para pequenos e médios produtores, que ainda enfrentam barreiras no sistema convencional, como burocracia excessiva e exigência de garantias complexas. “Para nós, o pequeno produtor não é risco alto, ele é nosso cooperado. A gente senta junto, entende a necessidade e busca soluções. Seja com mais flexibilidade, agilidade ou orientação, ajudamos a quebrar o ciclo do ‘precisa de crédito para crescer, mas precisa ser grande para ter crédito’”, afirma Reposse.
Além do custeio da safra, o crédito cooperativo tem papel decisivo na transformação estrutural das propriedades rurais. As linhas de financiamento viabilizam investimentos em tecnologia, sustentabilidade e expansão da produção. “Não é só financiar o plantio. É financiar a transformação da propriedade”, destaca o executivo, acrescentando que o apoio vai desde a aquisição de drones e softwares de gestão até projetos de irrigação de precisão, construção de silos e armazéns, garantindo mais autonomia ao produtor na comercialização. “Quando financiamos tecnologia, energia renovável ou armazenagem, estamos dando ao produtor mais eficiência, autonomia e capacidade de crescer de forma sustentável. Ou seja, o crédito precisa acompanhar a evolução da atividade rural. Hoje, ele está diretamente ligado à inovação, à produtividade e à competitividade do produtor brasileiro”, completa Francisco.
Outro diferencial do cooperativismo financeiro é a capacidade de atuar de forma estratégica em cenários adversos. Em um ambiente marcado pela volatilidade dos preços internacionais e pelo aumento dos custos de produção, a relação entre cooperativa e produtor se torna ainda mais relevante. “Quando há quebra de safra ou oscilações bruscas de mercado, não viramos as costas. A relação deixa de ser apenas de crédito e passa a ser de parceria. Sentamos à mesa, renegociamos prazos e buscamos soluções para garantir a sustentabilidade do negócio”, explica o diretor do Sicoob.
Reposse também destaca que o sistema cooperativo tem ampliado sua atuação para além dos recursos oficiais, como o Plano Safra, utilizando fontes próprias, como a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), para manter o fluxo de financiamento mesmo em cenários de escassez. “O cenário é desafiador, mas também uma oportunidade para reforçar nosso papel. Onde falta previsibilidade, entra a solidez da cooperativa para garantir que a produção não pare.”
Com isso, o cooperativismo de crédito avança não apenas como financiador, mas como parceiro estratégico de toda a cadeia do agro, apoiando desde o produtor dentro da porteira até investimentos em logística, industrialização e distribuição.
“O crédito é o combustível do agro, e nossa proximidade com o produtor faz toda a diferença” – Francisco Reposse Jr., diretor do Sicoob
Perspectivas: expansão, inovação e protagonismo global
Se os desafios estruturais ainda impõem limites ao avanço do agro brasileiro, o horizonte para o cooperativismo é de expansão consistente, ganho de escala e reposicionamento estratégico no cenário global.
Para o presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, os sinais desse novo ciclo já são claros. “Até 2050, precisaremos dobrar a produção mundial de alimentos. O planeta dependerá cada vez mais do Brasil para garantir a segurança alimentar.”
Mais do que uma projeção, trata-se de uma mudança estrutural na geopolítica da produção de alimentos. “As cooperativas estão preparadas para isso. Vamos abastecer o mercado interno e também contribuir para alimentar mais de um bilhão de pessoas no mundo, sempre com produtos confiáveis e de qualidade”, afirma Canton.
Esse cenário abre espaço para um novo ciclo de crescimento, sustentado por quatro grandes vetores estratégicos: tecnologia, sustentabilidade, expansão internacional e integração das cadeias produtivas — pilares que já começam a redesenhar o papel das cooperativas no agro global.
No entanto, do presidente da Coopavel, Dilvo Grolli destaca que o potencial brasileiro ainda está longe do limite. “O Brasil ainda tem enorme capacidade de expansão. Temos área, clima e conhecimento. O desafio é aumentar a produtividade e levar tecnologia a todas as regiões para consolidar nossa posição como potência agro mundial.”
Nesse contexto, a tecnologia passa a ser um fator de sobrevivência competitiva. A digitalização do campo, o uso de inteligência de dados, automação e agricultura de precisão devem redefinir a forma de produzir, reduzindo custos, aumentando produtividade e melhorando a tomada de decisão. Além disso, a integração entre produção, indústria e mercado tende a se intensificar, consolidando um modelo em que as cooperativas controlam cada vez mais etapas da cadeia, do insumo ao produto final.
“O futuro do agro passa pela tecnologia, pela profissionalização e, principalmente, pela união das pessoas” – Dilvo Grolli, presidente da Coopavel
Outro eixo determinante é a sustentabilidade. Pressionadas por consumidores, investidores e mercados internacionais, as cadeias agroalimentares passam por uma transformação acelerada, em que rastreabilidade, redução de emissões e uso eficiente de recursos deixam de ser diferenciais e se tornam pré-requisitos. “As cooperativas têm potencial para liderar as finanças verdes e financiar toda a cadeia do agro, apoiando a transição para uma produção mais sustentável”, afirma o diretor do Sicoob, Francisco Reposse Jr., reforçando que esse movimento também reposiciona o papel do crédito no agro.
“O futuro passa pela digitalização, pelo uso de inteligência de dados e pela integração entre cooperativas de crédito e de produção. Isso permite oferecer soluções completas, antecipar necessidades e apoiar decisões estratégicas do produtor”, completa.
Essa integração financeira tende a ampliar o alcance das cooperativas, que passam a atuar não apenas como financiadoras, mas como estruturadoras de todo o ecossistema do agro, incluindo logística, industrialização e distribuição.
Na Coamo, a visão de futuro está diretamente associada à continuidade, à solidez e à capacidade de adaptação. Para o presidente executivo Airton Galinari, o crescimento é um processo permanente e ininterrupto: “A cooperativa não pode parar. A agricultura não para. Precisamos evoluir constantemente para atender os cooperados e acompanhar as transformações do mercado. O futuro passa por mais tecnologia, mais industrialização e estruturas cada vez mais eficientes. É isso que garante competitividade e sustentabilidade no longo prazo.”
Outro ponto crítico, e muitas vezes subestimado, é a sucessão no campo. Com o envelhecimento da população rural, garantir a permanência das novas gerações tornou-se uma prioridade estratégica para o setor. “(O cooperativismo) é o modelo mais eficaz para a sucessão familiar, porque cria condições reais para que os jovens permaneçam no campo com renda, acesso à tecnologia e perspectiva de futuro, garantindo a continuidade das propriedades e o fortalecimento do agronegócio”, afirma Canton.
Grolli amplia essa visão ao destacar o papel social e transformador do cooperativismo: “O jovem precisa de oportunidade, renda e perspectiva de futuro. O cooperativismo integra a família, distribui renda e cria condições concretas para que as novas gerações permaneçam no campo com visão empresarial e protagonismo.”
Mais do que garantir a continuidade das propriedades, esse movimento aponta para uma mudança de perfil no campo: um produtor rural cada vez mais preparado para tomar decisões estratégicas e inserido de forma competitiva nas cadeias globais do agronegócio. “O futuro do agro passa pela profissionalização, pela tecnologia e, principalmente, pela união das pessoas em torno de um modelo que gere oportunidades e desenvolvimento para todos”, conclui Grolli.
O peso das cooperativas no agro brasileiro
- 25% do PIB brasileiro vêm do agronegócio
- Mais de 50% da produção agropecuária tem participação de cooperativas
- R$ 150 bilhões+ em faturamento somado das grandes cooperativas do agro
- 1 milhão+ de produtores cooperados no Brasil
- Presença em milhares de municípios, muitas vezes como principal estrutura econômica local
Destaques por cooperativa:
Coamo (PR, SC, MS)
- 32 mil cooperados
- R$ 28,7 bilhões de receita
- 9,6 milhões de toneladas recebidas (2025)
- 3,8 milhões de toneladas exportadas
- 124 unidades em 3 estados
Aurora Coop (SC e atuação nacional/internacional)
- 850+ produtos no portfólio
- Presente em 77% dos lares brasileiros
- Exportações para 80+ países
- Atuação integrada: grãos, aves, suínos e leite
Coopavel (PR)
- Forte base de pequenos e médios produtores
- Referência nacional em inovação
- Realizadora do Show Rural Coopavel, um dos maiores eventos de tecnologia do agro da América Latina
Cooperativismo de crédito em números
- R$ 500 bilhões+ em ativos
- 17 milhões+ de cooperados
- 3 mil+ municípios atendidos
- Presença nacional, com forte atuação no interior
- Participação crescente no crédito rural
- Uma das principais redes de financiamento do Plano Safra
Por Letícia Rio Branco, Redação MundoCoop
Matéria exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop