A inteligência artificial generativa deixou para trás a fase de experimento e, hoje, se tornou realidade na rotina das empresas em escala global, movimento que se aplica diretamente ao cooperativismo e a seu ecossistema de negócios. Segundo uma pesquisa conduzida pela McKinsey & Company, 78% das organizações em todo o mundo já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma função em 2025. Isso representa um salto significativo em relação aos anos anteriores e um indicativo claro de que a tecnologia está deixando de ser promessa para se tornar infraestrutura essencial nas operações empresariais.
No entanto, mesmo que haja muita informação sobre a IA generativa em toda a rede, ainda existem muitas dúvidas sobre o seu uso e como a ferramenta pode realmente impactar positivamente o negócio que, no caso do cooperativismo, passa obviamente por elementos como intercooperação, transparência, participação democrática, inclusão, governança ética e valorização das pessoas.
Ben-Hur Correia, jornalista e pesquisador em inteligência artificial, diz que em primeiro lugar é essencial entender o papel essencial da IA generativa como mediadora de conhecimento. “Costumo dizer que ela é o maior tradutor que já inventamos. Um dos grandes entraves da democracia em qualquer organização é a assimetria de informação. Relatórios complexos, balanços financeiros cheios de termos técnicos e dados frios acabam afastando o cooperado do processo decisório. A IA generativa consegue pegar esse material árido e transformá-lo em explicações simples, em texto ou áudio, adaptadas à realidade de cada pessoa. Isso gera o que eu chamo de transparência radical”, explica.
“A IA generativa é o maior tradutor que já inventamos. Quando a informação se torna compreensível, a participação deixa de ser formal e passa a ser real”, Ben-Hur Correia, jornalista e pesquisador em inteligência artificial
Segundo ele, quando a informação passa a ser compreendida por todos, a participação deixa de ser formal e se torna efetiva. “A democracia cooperativa só funciona quando as pessoas entendem o que está sendo decidido. A IA generativa reduz drasticamente essa distância entre quem produz a informação e quem precisa usá-la para deliberar”, completa.
No campo da intercooperação, Ben-Hur enxerga a tecnologia como uma camada de inteligência coletiva. “Hoje, muitas cooperativas têm dados valiosos, mas isolados. A IA generativa pode atuar por cima desses sistemas, encontrando sinergias e oportunidades de negócios entre cooperativas, sem necessariamente expor dados sensíveis. Isso cria uma inteligência compartilhada, algo muito alinhado ao espírito cooperativista”, opina.
Essa visão também é compartilhada pela AI Fashion Architect Amanda Momente. “A IA generativa pode funcionar como aquele tradutor oficial da cooperativa. Sabe quando um documento parece escrito em outra língua? A tecnologia transforma isso em algo acessível, fácil de entender. Isso melhora a transparência e coloca todos na mesma página”, explica.
Para ela, a participação democrática também se fortalece quando a ferramenta é usada para organizar vozes. “Em processos participativos, ela consegue ler centenas de opiniões, sugestões e comentários, identificar padrões e mostrar os pontos em comum, sem apagar a diversidade. É como uma grande caixa de sugestões inteligente, que não deixa ninguém de fora”, observa.
Da hiperpersonalização no crédito ao “agrônomo de bolso”: a IA generativa ganha escala no cooperativismo
No universo do cooperativismo, os usos práticos da IA generativa já começam a se consolidar, especialmente em áreas como crédito, agro, saúde e consumo. O jornalista e pesquisador em IA Ben-Hur Correia destaca que a transição é clara: “Estamos saindo da era da segmentação para a era da hiperpersonalização. No crédito, por exemplo, a IA generativa não olha apenas o score frio. Ela consegue analisar o contexto de vida do cooperado, prever riscos e oferecer produtos financeiros no momento exato, quase como um consultor financeiro pessoal. Isso muda completamente a relação entre a cooperativa e o cooperado”, adianta.
Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria, empresa de consultoria de IA aplicada aos negócios, reforça ainda que, nas cooperativas de crédito, a IA generativa já demonstra impacto concreto no relacionamento. “Ferramentas de atendimento baseadas em IA generativa agilizam respostas, reduzem filas e melhoram a experiência do cooperado. Ao mesmo tempo, a automação de tarefas administrativas, como relatórios, registros de reuniões e documentos regulatórios, libera as equipes para aquilo que realmente importa: o relacionamento humano e a construção de confiança. A tecnologia não substitui esse vínculo, ela o fortalece”, ensina.
No agro, os efeitos são ainda mais visíveis no dia a dia do cooperado. “Costumo chamar de ‘agrônomo de bolso’”, diz Ben-Hur. “O produtor manda uma foto de uma praga pelo celular, a IA generativa analisa, cruza com dados climáticos e sugere a aplicação exata do defensivo. Isso reduz custos, evita desperdício e melhora a produtividade.”
Já Rafael Zarvos amplia essa perspectiva ao destacar o uso de simulações avançadas. “Com IA generativa, conseguimos modelar rotação de culturas, prever o comportamento do solo, simular agroflorestas e planejar safras com base em cenários climáticos locais. Isso empodera o agricultor, especialmente o pequeno produtor, e reduz a assimetria de informação no campo”, detalha.
Outro ponto de extrema importância é o setor da saúde cooperativa, onde o cuidado humano é insubstituível. Neste caso, a IA generativa aparece como suporte. “A ferramenta pode fazer a triagem inicial, organizar prontuários e automatizar notas clínicas. Isso poupa tempo do médico para aquilo que nenhuma máquina faz: acolher, escutar e cuidar”, destaca Ben-Hur.
“A presença humana nunca pode ser substituída em decisões que afetam a vida das pessoas”, Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria
Zarvos concorda e faz um alerta: “A presença humana nunca pode ser substituída no cuidado. A IA generativa deve ser uma aliada. Quando usada com responsabilidade, ela devolve tempo e qualidade à relação entre profissional de saúde e paciente.”
No entanto, vale destacar que essa mesma lógica se aplica ao trabalho humano dentro das cooperativas. Mesmo que o avanço da IA generativa gere inquietações, os especialistas são unânimes em afirmar que o protagonismo humano não apenas permanece, como se torna ainda mais relevante. Ben-Hur Correia defende o conceito de liderança algorítmica. “A IA não vem para substituir o humano, mas para ser uma extensão da mente humana. O trabalho repetitivo, de processar dados e preencher planilhas, a máquina assume. O humano sobe um degrau e passa a focar em estratégia, empatia, negociação e visão sistêmica. Quem souber orquestrar a IA será o profissional mais valioso”, adianta.
A AI Fashion Architect Amanda Momente traduz essa ideia de forma simples. Para ela, a IA generativa está tirando das pessoas aquilo que ninguém gosta de fazer. “É como uma máquina de lavar roupas: ela não substitui você, mas te libera para fazer atividades mais importantes. Para manter o protagonismo humano, as cooperativas precisam ensinar o básico de tecnologia, mostrar como a IA funciona na prática e deixar claro que decisões importantes continuam nas mãos das pessoas”, diz.
“Usar IA é como ter uma máquina de lavar: ela não substitui você, mas libera tempo para o que realmente importa”, Amanda Momente, AI Fashion Architect
Essa preparação passa pelo desenvolvimento de novas competências. Para Ben-Hur, a habilidade central do futuro não é técnica, mas cognitiva. “Chamo de fluência crítica em IA generativa. O profissional precisa saber formular o problema, fazer a pergunta certa, validar a resposta e julgar se aquele uso é ético e coerente com os valores da cooperativa. A IA alucina, inventa coisas. Por isso, o humano precisa ter repertório e senso crítico.”
Rafael Zarvos complementa afirmando que a adoção da IA generativa é também uma transformação cultural. “Mais do que aprender a usar uma ferramenta, cooperados e profissionais precisam entender o que é a IA generativa, como ela aprende e quais são seus limites. Isso é letramento digital em IA. Sem isso, não há autonomia, apenas dependência tecnológica.”
Governança como antídoto aos riscos da IA generativa
Diante dos riscos associados à IA generativa, a governança se impõe como ponto central. “A regra de ouro é manter o humano no comando”, afirma Ben-Hur. “Decisões críticas, que impactam diretamente a vida do cooperado, jamais podem ser totalmente automatizadas. A IA sugere; o humano decide.”
“A alfabetização em IA precisa ser permanente. Sem letramento, há dependência tecnológica, não autonomia.” – Rafael Zarvos, fundador da IAmazing Consultoria
Para Rafael Zarvos, esse equilíbrio passa pela criação de comitês participativos de IA, reunindo cooperados, gestores e especialistas. “Trabalhar com IA generativa não é apenas uma escolha técnica, mas uma decisão ética e política. As cooperativas têm todas as condições para liderar esse processo de forma justa e responsável”, observa.
Os desafios começam, muitas vezes, antes da tecnologia. “Não adianta ter a IA mais moderna se os dados estão bagunçados, em silos ou em papel. É o velho ditado: lixo entra, lixo sai”, lembra Ben-Hur. A escolha do modelo de implantação também exige estratégia. Para os três especialistas, o modelo híbrido tende a ser o mais adequado. “Use motores prontos e construa soluções próprias conectadas à sua base de dados segura. Isso traz potência com personalização”, resume Ben-Hur. Amanda Momente compara: “É como comprar uma roupa pronta e ajustar no alfaiate.”
Por fim, a inclusão digital surge como um compromisso inegociável. “A tecnologia pode ampliar desigualdades se não houver cuidado”, alerta Rafael Zarvos. “A alfabetização em IA generativa precisa ser permanente, acessível e pensada para todos os perfis de cooperados. Afinal, a ferramenta precisa estar a serviço das pessoas e da comunidade. Se for assim, o cooperativismo não apenas acompanhará essa transformação, mas poderá liderá-la”.
Fique por dentro: como as cooperativas podem usar a IA generativa com sucesso
- Comece pelos dados, não pela ferramenta: organize informações, integre sistemas e elimine silos. IA só funciona bem quando os dados estão estruturados, atualizados e confiáveis.
- Use a IA como tradutora, não como decisora: a IA generativa é poderosa para transformar relatórios técnicos em linguagem simples, ampliar a transparência e apoiar a participação democrática; decisões críticas devem continuar humanas.
- Aposte no modelo híbrido: use motores prontos de IA (como grandes plataformas globais), mas conectados a bases de dados próprias, seguras e alinhadas à realidade da cooperativa. Potência com identidade.
- Fortaleça a governança e a ética: crie comitês participativos de IA, com cooperados, gestores e especialistas. Defina claramente onde a IA pode atuar e onde não pode.
- Priorize inclusão digital: adote linguagem simples, recursos por voz, soluções acessíveis e capacitação contínua. A IA deve reduzir desigualdades, não as ampliar.
- Use a tecnologia para liberar tempo humano: automatize tarefas repetitivas e burocráticas para que pessoas foquem em relacionamento, estratégia, empatia e tomada de decisão.
Por Leticia Rio Branco
Matéria exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop