China quer reduzir dependência de importação e traz riscos ao agro brasileiro

Escrito em 20/05/2026
MundoCoop

A China planeja reduzir a dependência de importações para garantir a sua segurança alimentar. É o que indica o 15º Plano Quinquenal do país (2026-2030). A posição traz riscos ao agronegócio do Brasil, que pode deixar de faturar bilhões de dólares em exportações.

“Estamos falando de mais ou menos entre US$ 50 e US$ 60 bilhões por ano em exportações do agro para a China”, afirma Patrícia Ellen, sócia-presidente da Systemiq na América Latina e ex-secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. “Não é uma perda imediata. Pode ser gradual, deve ter ajustes de mercado, mas a ordem de grandeza do impacto é essa”, diz.

O 15º Plano Quinquenal, aprovado em março, menciona a segurança alimentar e a autossuficiência como prioridades para o governo chinês. A intenção é garantir a capacidade produtiva, basear o fornecimento no mercado interno, moderar importações, e diversificar a oferta de produtos à população.

“A consideração crítica é se a China vai continuar a impulsionar o crescimento da demanda global”, aponta a Systemiq, no relatório China’s Food Future, que produziu com a Gordon and Betty Moore Foundation.

O estudo destaca que, nos últimos 40 anos, a China foi um “motor” da demanda agrícola global. “Remodelou” cadeias de suprimentos quando conciliou suas prioridades à sua capacidade industrial.

A situação, agora, é diferente. A relação com os mercados agrícolas vai depender da forma como o país pretende garantir seu próprio abastecimento.

Não é um choque pontual. É uma mudança estrutural. A pergunta não é ‘se’ e ‘como’ [será o impacto da política chinesa], mas ‘quando’ e ‘com qual intensidade’. E mais importante: como o agro brasileiro pode se reorganizar?”

— Patrícia Ellen, sócia-presidente da Systemiq na América Latina

Exportações de soja e carne bovina estão entre as que mais podem ficar expostas a riscos de queda na demanda chinesa. Na carne, o país impôs uma salvaguarda e estabeleceu uma cota de embarque com tarifa mais baixa.

O volume do Brasil com benefício tarifário é de 1,1 milhão de toneladas, quase 600 mil a menos do que o embarcado em 2025. Dados do governo chinês apontam que 50% se cumpriram. A indústria ainda aposta na força do país asiáticos, mas a avaliação é de que a cota veio para ficar.

Exportações de carne bovina para a China

Na soja, além da substituição de parte das importações por produção local, o Brasil tende a enfrentar maior concorrência com países como Estados Unidos e Argentina.

Na semana passada, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se reuniram, na tentativa de destravar tensões políticas e comerciais. Os dois presidentes falaram em resultados positivos, mas não detalharam eventuais acordos.

Posteriormente, o governo dos Estados Unidos anunciou que os chineses comprarão produtos agrícolas americanos. E recebeu do governo chinês a informação de que 77 frigoríficos exportadores de carne bovina foram habilitados para o comércio bilateral.

O Departamento de Agricultura americano (USDA) estima, para a safra 2025/26, uma produção de 20,90 milhões de toneladas do grão pela China e importações de 112 milhões. Para 2026/27, projeta uma colheita de 21 milhões de toneladas e importações de 114 milhões.

Exportação de soja do Brasil para a China

Em seu relatório, a Systemiq lembra que os chineses compram, em média, 71% da soja brasileira e 54% da americana. Na carne bovina, responde por mais da metade do que o Brasil exporta. Na Argentina, a proporção chega a 75%.

A empresa calcula que o cumprimento do Plano Quinquenal pode significar uma redução de 23,5 milhões de toneladas nas importações chinesas de soja, 25% em comparação com os níveis atuais.

“Reduções significativas nas importações de carne bovina, carne suína, laticínios e ovos também são projetadas, enquanto a demanda por milho aumenta modestamente com o ajuste nas reformulações de alimentos”, pontua o relatório.

A Systemiq destaca ainda que o plano do governo chinês inclui o desenvolvimento de proteínas alternativas e o fortalecimento de uma indústria de base biológica. E que os próximos 12 a 18 meses serão decisivos para acompanhar o cumprimento dessa agenda.

Patrícia Ellen avalia que, embora os resultados para a economia chinesa possam vir mais a longo prazo, o agro brasileiro deve se mobilizar de imediato para evitar seus efeitos.

Ela pontua que, dos principais produtos que o Brasil exporta para a China – soja, milho, carne bovina e carne de frango – o país é o principal comprador de quase todos.

Em um cenário conservador, explica Patrícia, o Brasil deixaria de exportar de 10 milhões a 20 milhões de toneladas de soja para a China até 2030. Seria algo como US$ 5 bilhões a US$ 20 bilhões por ano, a depender da reorganização do mercado.

“Não é só o volume. A redução da demanda chinesa tende a pressionar os preços internacionais e aumentar a concorrência, reduzindo margens ao longo da cadeia”, diz. “E atinge valor de terra, decisões de investimento, demanda por insumos, infraestrutura. Tem um efeito dominó”, acrescenta.

O agro brasileiro precisará se reorganizar, afirma Patrícia. É uma estratégia de defesa, mas também uma agenda de oportunidades: vender uma variedade cada vez maior de produtos e chegar a mercados que, embora não comprem nos mesmos volumes que os chineses, paguem valores mais elevados.

A executiva avalia que acordo comerciais, como Mercosul-União Europeia, Mercosul-EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), Mercosul-Cingapura tendem a trazer resultados positivos. Não substituem a China, mas ajudam a diluir riscos e a reduzir a exposição a movimentos da política chinesa.

Agregar valor às cadeias produtivas, posicionar-se como fornecedor de insumos para novos ramos de produção – como proteínas alternativas – e aumentar a aposta na bioeconomia, agropecuária de baixo carbono e biocombustíveis devem integrar essa estratégia de diversificação de mercados.

O agro também precisa ficar atento à China como fornecedor. O país está entre as principais origens de fertilizantes para o mercado brasileiro e, recentemente, decidiu restringir suas vendas externas do insumo.

A situação, junto com as guerras no Leste Europeu e no Oriente Médio, coloca ainda mais urgência à execução de uma política que reduza a dependência do Brasil de fertilizante importado.

“Não é um choque pontual. É uma mudança estrutural. A pergunta não é ‘se’ e ‘como’ [será o impacto da política chinesa], mas ‘quando’ e ‘com qual intensidade’. E mais importante: como o agro brasileiro pode se reorganizar?”, questiona Patrícia.


Fonte: Globo Rural

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