O clima mudou. A cooperativa também pode mudar a sua forma de enxergar

Escrito em 30/10/2026
MundoCoop

Quem cresceu perto do campo sabe: o produtor olha para o céu antes de olhar para a planilha.

Chuva demais, seca que não acaba, geada fora de hora. Isso sempre fez parte da vida de quem planta. E o cooperativismo sempre esteve ali do lado, ajudando o associado a atravessar os anos difíceis. É uma das coisas mais bonitas do nosso modelo.

O que mudou foi a intensidade. A gente viu o Rio Grande do Sul debaixo d’água em 2024. Viu safras perdidas pela seca em várias regiões. Viu crescer as renegociações e os alongamentos. O clima entrou na sala de crédito e virou assunto de balanço.

Em uma carteira real de crédito agrícola que analisamos neste ano, a grande maioria das operações apresentava histórico de exposição a eventos climáticos extremos.

Mas eu quero falar do outro lado dessa história. Porque junto com o desafio vieram 

ferramentas que o cooperativismo nunca teve.

Tenho escutado muito de gestores uma frase:

“O produtor é bom. O problema foi o ano.”

É verdade. E é justamente por isso que existe saída. Se o problema não é o produtor, e sim o clima, então dá para tratar o clima como informação. Dá para enxergar antes.

O sistema financeiro sempre aprendeu a medir perda depois que ela acontece. Hoje dá para medir exposição antes.

E o primeiro passo é mais simples do que parece. Cada operação de crédito rural registrada no SICOR já leva a localização das áreas financiadas. A carteira já está no mapa. Ninguém precisa começar do zero.

O ZARC continua sendo uma referência valiosa. Construído a partir de séries históricas e critérios agronômicos, ele orienta quando e onde plantar para reduzir riscos climáticos. 

O que faltava era olhar para o presente. Saber o que está acontecendo nesta safra, com estes associados, agora.

Mas o clima sozinho também não conta tudo. Duas propriedades vizinhas, debaixo da mesma chuva, podem ter riscos bem diferentes. Uma tem CAR em dia, bom histórico de crédito e boas práticas de manejo. A outra, não. A leitura que realmente ajuda a decidir é a que junta clima, perfil socioambiental e histórico de crédito num olhar só.

É aí que a coisa fica bonita.

Quando a cooperativa enxerga com antecedência que uma região vai entrar em estresse hídrico ou receber chuva extrema, ela pode ligar para o produtor. Conversar sobre o seguro. Rever a janela de plantio. Ajustar o cronograma antes que a parcela vire atraso.

O dado deixa de ser só ferramenta de risco. Vira ferramenta de cuidado.

E tem um detalhe que me emociona. O produtor sozinho dificilmente teria acesso a esse tipo de inteligência. A cooperativa tem. Ela consegue fazer, em escala, algo que protege cada associado individualmente. Isso é cooperação na prática.

A regulação também caminha nessa direção. O Banco Central já pede que o risco climático seja tratado de forma estruturada e as IFRS S1 e S2 já fazem parte do ambiente regulatório brasileiro, com adoção gradual pelas instituições. Talvez sua cooperativa não esteja obrigada diretamente. Mas quem empresta recursos, quem segura a safra e quem compra a produção já está sendo cobrado. E vai procurar parceiros que consigam mostrar essa informação.

Quem se antecipa não está só cumprindo regra. Está virando o parceiro preferido.

Porque não basta dizer que se preocupa com o clima. Vai ser preciso mostrar. 

Isso tem nome: evidência.

Ou, na linguagem desta coluna: lastro.

E esse lastro está ao alcance. O dado existe. A tecnologia existe. E o cooperativismo tem uma coisa que nenhuma tecnologia substitui: estar perto de quem produz.

O clima vai continuar mudando. A diferença é que agora dá para ver ele chegando.

Então deixo a pergunta:

O que a sua cooperativa faria se soubesse, uma ou duas semanas antes, quais associados vão precisar dela?


Mauricio Rodrigues é CEO da ESGreen

Matéria exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop

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