Em um contexto marcado pela crescente popularidade do ESG (Environmental, Social and Governance), vale recordar que muitas das preocupações atualmente associadas à sustentabilidade organizacional não são exatamente novas. Muito antes da consolidação do conceito de ESG e mesmo antes da difusão do Desenvolvimento Sustentável – DS, o cooperativismo já estruturava sua atuação a partir de princípios que combinavam eficiência econômica, participação democrática e compromisso com a comunidade.
O conceito de DS consolidou-se internacionalmente a partir do Relatório Brundtland, publicado em 1987 pela Organização das Nações Unidas – ONU, propondo a conciliação entre crescimento econômico, proteção ambiental e bem-estar social. Posteriormente o debate avançou, em especial a questão da redução das desigualdades e sua interdependência com justiça intergeracional. A Agenda 2030 e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável reforçaram a centralidade dessas discussões no cenário internacional, ampliando sua presença nas agendas governamentais, empresariais e da sociedade civil.
Enquanto o DS procura responder à pergunta “que sociedade queremos construir?”, o ESG busca responder “como avaliar se uma organização está preparada para lidar com os desafios da sustentabilidade?”.
Essa diferença de enfoque ajuda a compreender tanto a força quanto os limites do ESG. Sua principal contribuição foi transformar temas amplos e muitas vezes abstratos em mecanismos de gestão. Ao incorporar indicadores, métricas, e padrões de divulgação a sustentabilidade passa objetivamente ao cotidiano das organizações.
Além disso, a dimensão da governança trouxe para o centro do debate questões relacionadas à transparência das organizações. Em um contexto marcado por crises de confiança em organizações públicas e privadas, essa contribuição não pode ser ignorada. Entretanto, é justamente nesse ponto que surge uma questão relevante.
Cabe então perguntar: o ESG trouxe uma nova dimensão para a sustentabilidade ou apenas novas formas de mensurá-la?
Uma análise mais cuidadosa sugere que grande parte dos temas presentes no ESG já estava contemplada, de alguma forma, nas discussões sobre DS. O que mudou foi a linguagem utilizada, os instrumentos de avaliação e a capacidade de traduzir esses princípios em indicadores observáveis. Esta mudança contribui também com a consolidação de legislação mais específica acerca dos direitos e deveres individuais/organizacionais.
Por outro lado, o ESG tende a deixar em segundo plano aspectos relacionados à participação democrática e ao desenvolvimento com diversos adjetivos, muitas vezes complementares: local, comunitário, regional, territorial etc.
É exatamente nesse espaço que os princípios cooperativistas merecem atenção. Muito antes do Relatório Brundtland e da popularização do ESG, o cooperativismo já havia desenvolvido um conjunto de princípios orientadores que dialogam diretamente com os desafios contemporâneos da sustentabilidade.
Desenvolvidos a partir da primeira cooperativa moderna, a Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdale (1844), e consolidados pela Aliança Cooperativa Internacional, criada em 1895.
A ACI antecede diversas instituições multilaterais que hoje desempenham papel central na governança global, como a Organização Internacional do Trabalho (1919), a Organização das Nações Unidas (1945), a Organização Mundial da Saúde (1948) e a Organização Mundial do Comércio (1995). A longevidade da ACI evidencia que a cooperação internacional entre organizações não é uma resposta recente aos desafios da sustentabilidade, mas uma construção histórica iniciada ainda no século XIX
Os princípios cooperativistas, inspirados na experiência de Rochdale e consolidados pela ACI, atravessaram diferentes contextos históricos sem perder relevância. Duas guerras mundiais, a crise econômica de 1929, a Guerra Fria e as transformações da globalização alteraram profundamente as relações econômicas e sociais em todo o mundo. Ainda assim, valores como gestão democrática, participação econômica, educação, intercooperação e interesse pela comunidade permaneceram centrais ao movimento cooperativista. Em retrospecto, não parece exagerado afirmar que muitas das preocupações atualmente associadas ao DS, à governança e ao ESG já estavam presentes, em diferentes formas, nos princípios cooperativistas há mais de um século.
Após o centenário da ACI em Manchester (1995), os sete princípios são: adesão livre e voluntária; gestão democrática; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação, formação e informação; intercooperação; e interesse pela comunidade. Entre os sete princípios, o interesse pela comunidade é aquele que mais diretamente aproxima o cooperativismo das discussões contemporâneas sobre sustentabilidade, ao reconhecer que o sucesso das organizações está intimamente relacionado ao desenvolvimento dos territórios e das populações onde atuam. Os princípios cooperativistas constituem uma proposta organizacional que combina eficiência econômica e compromisso social.
O aspecto mais interessante é que diversos temas atualmente valorizados pelos indicadores ESG já estavam presentes na prática cooperativista. Mas há diferenças. Enquanto o ESG avalia a sustentabilidade a partir da organização, os princípios cooperativistas partem das pessoas e das comunidades. O foco não está apenas nos resultados, mas também na forma como esses resultados são construídos e distribuídos.
Essa distinção pode parecer sutil, mas possui implicações profundas. Uma organização pode apresentar excelentes indicadores, cumprir compromissos formais de governança sem que seus públicos tenham participação efetiva nos processos decisórios.
Nesse sentido, os princípios cooperativistas oferecem uma contribuição que vai além da mensuração. Eles lembram que a sustentabilidade também envolve pertencimento, participação, aprendizagem coletiva e responsabilidade compartilhada.
A principal novidade do ESG não passa pela observação de novos valores, mas a criação de mecanismos capazes de medir, comparar e comunicar práticas organizacionais relacionadas à sustentabilidade. Os valores fundamentais já estavam presentes em diferentes tradições teóricas e organizacionais, entre elas o próprio cooperativismo.
Quadro Comparativo: ESG e Princípios Cooperativistas
| Critério associado ao ESG | Princípio Cooperativista Correspondente |
| Governança | Gestão democrática pelos membros e Autonomia e Independência |
| Social | Interesse pela comunidade |
| Inclusão | Adesão livre e voluntária |
| Desenvolvimento humano | Educação, formação e informação |
| Sustentabilidade econômica | Participação econômica dos membros |
| Redes colaborativas | Intercooperação |
Fonte: Elaboração do autor a partir dos princípios cooperativistas da ACI e dos critérios ESG.
A comparação evidencia que diversos elementos atualmente valorizados pelos critérios ESG já estavam presentes nos princípios cooperativistas formulados e consolidados ao longo de mais de um século de experiência organizacional. Isso não significa que ESG e cooperativismo sejam conceitos equivalentes, mas sugere que a principal inovação do ESG não está na criação de novos valores relacionados à sustentabilidade. Sua contribuição mais significativa consiste na construção de mecanismos de mensuração, comparação e comunicação desses valores para organizações, investidores e demais partes interessadas.
Ao observar o debate contemporâneo, a pergunta deixa de ser se ESG, DS ou cooperativismo são alternativas concorrentes. Se o ESG contribuiu para medir a sustentabilidade, os princípios cooperativistas continuam lembrando por que ela importa e para quem ela deve servir.
Airton Cardoso Cançado é doutor em Administração, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pesquisador das relações entre cooperativismo, desenvolvimento regional e políticas públicas.